Manutenção de elevadores no Brasil

O sistema que está operando no limite

O Brasil encerrou 2025 com 74 acidentes envolvendo elevadores e 29 mortes. Em 2026, apenas até março, já são dez acidentes noticiados pela mídia, com pelo menos uma fatalidade. Quando olhamos esses números de forma isolada, eles já são preocupantes. Mas o cenário se torna ainda mais crítico quando analisamos tecnicamente esses eventos e percebemos que a maioria deles não está relacionado à falhas inesperadas, e sim à problemas recorrentes, conhecidos e, principalmente, evitáveis.

E existe um ponto que precisa ser trazido para o centro da discussão: anos atrás, o índice de acidentes era significativamente mais baixo. Isso não é apenas percepção, é algo que quem atua há mais tempo no setor consegue observar com clareza. Ao longo dos anos, o número de ocorrências vem aumentando, e isso indica que não estamos lidando com eventos pontuais, mas sim com uma deterioração gradual das condições de segurança.

Naturalmente, assim como eu, muitos tendem a buscar respostas em aspectos técnicos mais visíveis, como falhas de equipamento, erros de instalação ou até mesmo nas exigências normativas mais recentes. Mas, ao aprofundar a análise, fica evidente que o problema principal não está nesses pontos de forma isolada.

O que temos hoje é um modelo de manutenção que, em muitos casos, não consegue mais sustentar o nível de segurança exigido por um sistema como o elevador. A base desse problema começa na forma como a manutenção é contratada.

O mercado, de maneira geral, ainda é fortemente orientado pelo menor preço. Síndicos, administradoras e contratantes, muitas vezes pressionados por redução de custos, acabam priorizando propostas financeiramente mais atrativas, sem uma análise técnica mais aprofundada sobre o que está sendo efetivamente entregue naquele contrato.

Ao longo das vistorias e perícias que venho realizando em diferentes regiões do Brasil, essa distorção se repete com frequência. Existe uma desconexão clara entre o valor cobrado e o custo real necessário para manter uma operação minimamente estruturada. E isso não é um problema pontual de uma empresa ou outra, mas sim um comportamento de mercado.

Um fator que contribui diretamente para esse cenário é o perfil de boa parte dos novos entrantes no setor. Muitos são profissionais oriundos da área técnica, com ampla experiência prática, muitas vezes vindos de multinacionais ou de empresas consolidadas. São bons técnicos, conhecem o funcionamento do elevador, sabem identificar falhas, mas ao abrirem suas próprias empresas, passam a enfrentar um desafio completamente diferente: gerir um negócio.

E é nesse ponto que surgem as fragilidades. A precificação, que deveria ser uma atividade estruturada, baseada em custos diretos e indiretos, análise de risco e sustentabilidade da operação, muitas vezes é feita de forma simplificada. Não se consideram adequadamente despesas como deslocamento, tempo improdutivo, ferramentas, reposição de componentes, EPIs, seguros, encargos trabalhistas, carga tributária, estrutura administrativa, entre outros fatores essenciais.

Cria-se, então, uma percepção equivocada de rentabilidade. O valor do contrato é visto como receita líquida, quando, na prática, ele precisa sustentar toda a operação. Esse erro de leitura leva à formação de preços abaixo do mínimo necessário para manter qualidade técnica.

Historicamente, contratos de manutenção eram praticados a partir de um salário mínimo por equipamento. Esse patamar, embora não perfeito, ainda mantinha uma relação mais coerente com a responsabilidade técnica envolvida. Hoje, já encontramos situações em que o valor praticado chega a R$ 80,00 por elevador. Esse tipo de preço não cobre sequer os custos básicos de operação, quanto mais uma manutenção preventiva de qualidade.

O problema é que, quando esse tipo de prática entra no mercado, ele não afeta apenas quem está operando dessa forma. Ele pressiona todo o setor! Empresas mais estruturadas, inclusive multinacionais e empresas regionais consolidadas, passam a competir em um ambiente distorcido. E, para manter contratos, muitas acabam adotando estratégias de compensação.

A principal delas é o aumento da carteira por técnico…Esse movimento talvez seja hoje um dos maiores riscos silenciosos do setor. E não se trata de uma opinião, mas é algo que pode ser observado na prática.

Eu vivi esse processo. No início da minha carreira, era comum um técnico cuidar de cerca de 60 elevadores por mês. Já nas últimas experiências em campo, esse número chegou a variar entre 150 e 200 equipamentos por profissional. E esse crescimento não veio acompanhado de ganho proporcional de tempo, estrutura ou suporte técnico.

Do ponto de vista da engenharia de manutenção, isso é incompatível com qualquer conceito de preventiva bem executada. Um elevador não é um sistema simples, ele envolve interação entre componentes mecânicos, elétricos e eletrônicos, além de diversos dispositivos de segurança que precisam ser verificados, ajustados e testados periodicamente.

Quando se coloca um volume excessivo de equipamentos sob responsabilidade de um único técnico, o que ocorre, na prática, é uma mudança no perfil da manutenção. Ela deixa de ser preventiva e passa a ser reativa. O foco deixa de ser antecipar falhas e passa a ser resolver problemas quando o equipamento já parou ou apresentou alguma ocorrência.

Isso explica, em grande parte, o que encontramos nas inspeções técnicas independentes. É recorrente identificar freios de segurança desajustados, portas com desgaste avançado, guias desalinhadas, componentes operando fora de especificação, além de intervenções inadequadas em circuitos de segurança. Também é comum a ausência de testes funcionais periódicos, que são fundamentais para garantir a atuação correta dos dispositivos de segurança em situações de risco.

Essas falhas não surgem de forma repentina, mas são resultado de um processo gradual de degradação, que não foi tratado no tempo adequado. E isso nos leva a um ponto importante: muitos acidentes não são eventos inesperados, mas sim o estágio final de uma sequência de falhas não corrigidas.

Paralelamente a isso, existem outros fatores que também contribuem para o aumento do risco, como a execução de serviços sem projeto, ausência de memorial de cálculo, uso de componentes inadequados e até a atuação de profissionais sem a qualificação necessária. Esses problemas existem e são relevantes, mas não explicam sozinhos o cenário atual.

Existe uma causa estrutural que precisa ser enfrentada: a incompatibilidade entre o modelo econômico da manutenção e o nível de segurança exigido. Com a entrada em vigor da ABNT NBR 16858, esse conflito ficou ainda mais evidente. A norma trouxe avanços importantes, alinhados com práticas internacionais, introduzindo conceitos como redundância de segurança, maior controle sobre falhas e aumento da confiabilidade dos sistemas. No entanto, ao elevar o nível de exigência técnica, a norma também expôs as limitações do modelo atual.

Parte do setor reagiu culpando a norma, mas essa leitura não se sustenta tecnicamente. A norma não criou o problema, ela apenas evidenciou um problema que já existia e que vinha sendo absorvido, de forma silenciosa, pelo sistema. No fim, o que temos hoje é um cenário onde se exige mais segurança, mas não se oferece as condições necessárias para que essa segurança seja garantida.

E isso precisa ser discutido com maturidade. O setor precisa avançar não apenas tecnicamente, mas também em termos de gestão e estrutura. É necessário melhorar a forma como os serviços são precificados, preparar melhor os profissionais que estão entrando no mercado como empresários e, principalmente, conscientizar os contratantes sobre o que está em jogo.

Manutenção de elevador não é um serviço comum. Não é comparável com manutenção de itens de baixo risco. Estamos falando de um sistema que transporta pessoas diariamente, com potencial de gerar acidentes graves quando não mantido adequadamente.

Enquanto a manutenção continuar sendo tratada como um custo a ser reduzido, e não como uma atividade técnica essencial para a segurança, o setor continuará operando no limite. E operar no limite, em engenharia, nunca é uma condição aceitável. Os números de acidentes não são coincidência, são consequência de um modelo que precisa ser revisto.

Não existe engenharia que sustente um sistema economicamente inviável. E não existe segurança onde não há condição de manter.

SOBRE O AUTOR

Homem em pé em frente a bola de beisebol O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.Carlos Eduardo é Engenheiro Mecânico e Engenheiro de Segurança do Trabalho, com mais de 15 anos de experiência na área de transportes verticais. É proprietário da ON Soluções em Engenharia, empresa especializada em auditorias, vistorias técnicas, projetos e treinamentos em elevadores, escadas e esteiras rolantes. Atuou nas três maiores fabricantes de elevadores do mundo, acumulando experiência prática em campo, projetos e manutenção. Atualmente, também é professor de pós-graduação e cofundador do Engenheiros do Elevador, a primeira comunidade brasileira dedicada à capacitação de engenheiros e tecnólogos mecânicos para atuação independente em vistorias e inspeções técnicas. É membro do Comitê Nacional da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), participando de estudos, revisões e atualizações de normas relacionadas a cabos de aço, elevadores, plataformas de acessibilidade e escadas/esteiras rolantes. Associado ao IBAPE-ES (Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia) e Inspetor do CREA-ES em cargo honorífico. Possui ainda formação técnica em Mecânica e Eletrônica.

 

ÚLTIMA EDIÇÃO REVISTA

spot_img

ÚLTIMAS MATÉRIAS