Cálculo de Tráfego em Elevadores

Muito além da fórmula da NBR 5665

1. Introdução

“Quantos segundos uma pessoa pode esperar por um elevador antes de considerar o sistema ineficiente?”

Quando projetamos um sistema de transporte vertical, estamos tomando uma decisão estrutural do empreendimento. Se errarmos para menos, o prédio nasce com um problema crônico. Se superdimensionarmos o sistema, o empreendimento assume um custo de investimento desnecessário.

O desempenho de um edifício começa no projeto. E, no caso dos sistemas de transporte vertical, um erro de dimensionamento não é facilmente corrigido após a construção. Estruturas podem ser reforçadas. Fachadas podem ser remodeladas. Sistemas elétricos podem ser atualizados. Um grupo de elevadores subdimensionado torna-se um problema operacional permanente, difícil de corrigir após a construção do edifício.

O cálculo de tráfego, conforme estabelecido pela ABNT NBR 5665, é a ferramenta técnica que orienta essa decisão crítica. No entanto, aplicar fórmulas isoladamente não é suficiente. É necessário compreender o modelo de comportamento que sustenta o cálculo.

2. A Norma como Modelo de Comportamento — Não Apenas um Conjunto de Fórmulas

A ABNT NBR 5665 não deve ser interpretada apenas como um roteiro matemático. Ela é, na essência, um modelo simplificado do comportamento humano dentro de um edifício.

Cada parâmetro da norma carrega uma hipótese implícita:

  • Como as pessoas chegam ao edifício
  • Como se distribuem ao longo do tempo
  • Como interagem com o sistema de elevadores
  • Quanto tempo levam para embarcar, desembarcar e tomar decisões

Quando o projetista ignora essas premissas e se limita à aplicação direta das equações, o resultado pode até “fechar na conta”, mas não necessariamente refletirá a realidade operacional. Por isso, entender as nuances da norma é tão importante quanto saber utilizá-la.

3. O Impacto do Tipo de Uso: Muito Além da População

Um dos primeiros pontos críticos da norma está na definição do tipo de uso do edifício. O comportamento do tráfego de passageiros em elevadores varia conforme o tipo de uso do edifício, o que influencia diretamente o dimensionamento do sistema conforme os critérios da ABNT NBR 5665.

Edifícios comerciais apresentam um pico de demanda mais concentrado, normalmente no início da manhã, quando muitos usuários chegam ao trabalho em um curto intervalo de tempo. Nesse período, ocorre o chamado pico de subida, com grande concentração de passageiros no pavimento térreo e viagens predominantes para os pavimentos superiores. Essa situação exige maior capacidade de transporte e intervalos menores entre elevadores.

Já nos edifícios residenciais, o fluxo tende a ser mais distribuído ao longo do tempo. O pico mais relevante ocorre pela manhã, quando os moradores deixam o edifício, caracterizando um pico de descida, com passageiros partindo de diversos pavimentos em direção ao térreo. Como a demanda é menos concentrada, o sistema de elevadores pode operar com menor capacidade de transporte.

Em síntese, edifícios comerciais apresentam picos de tráfego mais intensos e concentrados, enquanto edifícios residenciais apresentam demanda mais dispersa ao longo do tempo, o que resulta em critérios distintos de dimensionamento.

Este gráfico didático mostra a diferença típica entre os perfis de demanda de elevadores ao longo do dia para:

  • Edifícios comerciais
  • Edifícios residenciais

Nota: O índice de Demanda de Elevadores representa a intensidade relativa do uso do sistema de elevadores ao longo do dia, considerando fatores como:

  • Quantidade de pessoas utilizando os elevadores
  • Concentração de chamadas
  • Intensidade do fluxo de passageiros

Quanto maior o valor do índice, maior é a demanda pelo sistema de transporte vertical naquele momento.

4. Tempo de Viagem: Onde Pequenos Detalhes Geram Grandes Diferenças

O tempo total de viagem (RTT) é o coração do cálculo de tráfego. Mas o que muitas vezes passa despercebido é que ele é fortemente influenciado por componentes aparentemente secundários. Entre eles, destacam-se:

4.1. Tipo de Porta

Um dos exemplos mais claros — e frequentemente subestimados — é o tipo de abertura de porta. Portas de abertura central, por exemplo, apresentam tempos menores de abertura e fechamento quando comparadas a portas de abertura lateral.

Esse detalhe impacta diretamente:

  • O tempo de parada em cada pavimento
  • O número de viagens possíveis em 5 minutos
  • O intervalo médio entre elevadores

Na prática, isso significa que dois sistemas idênticos — com mesma capacidade, velocidade e número de elevadores — podem apresentar desempenhos significativamente diferentes apenas pela escolha do tipo de porta. É uma decisão de projeto com impacto direto no resultado final, embora muitas vezes tratada como um detalhe arquitetônico.

4.2. Tempo de Troca de Passageiros

Outro ponto crítico é o tempo de entrada e saída de passageiros. A norma trabalha com valores tabelados, mas a realidade pode variar bastante:

  • Edifícios corporativos com fluxo intenso tendem a ter embarques mais rápidos
  • Edifícios residenciais, especialmente com idosos ou crianças, apresentam tempos maiores
  • Uso de acessórios (carrinhos, mochilas, volumes) altera significativamente esse tempo

Esse parâmetro influencia diretamente o tempo total de viagem — e, portanto, a capacidade do sistema.

4.3. Número de Paradas Prováveis

A norma permite estimar o número de paradas prováveis, mas esse valor depende de fatores como:

  • Número de pavimentos
  • Distribuição da população
  • Ocupação da cabina

Quanto maior a ocupação, maior a probabilidade de múltiplas paradas — e, consequentemente, maior o tempo de viagem. Esse efeito é cumulativo e, muitas vezes, subestimado em análises simplificadas.

5. Intervalo: O Indicador que o Usuário Percebe

Do ponto de vista técnico, o sistema pode atender à capacidade de transporte exigida. Mas, para o usuário, o que realmente importa é o intervalo. O intervalo médio representa o tempo entre partidas consecutivas no pavimento principal — ou, na prática, o tempo de espera percebido. É aqui que surge um ponto importante:

Um sistema pode ser tecnicamente adequado em capacidade e ainda assim ser percebido como lento. Isso ocorre quando:

  • O intervalo está próximo do limite admissível
  • Há variações operacionais ao longo do dia
  • O comportamento real difere do modelo teórico

A norma estabelece limites, mas a experiência do usuário costuma ser mais exigente do que o mínimo normativo.

6. Capacidade de Transporte: O Número que Engana

A capacidade de transporte em 5 minutos é frequentemente tratada como o principal indicador de desempenho. No entanto, ela pode induzir a interpretações equivocadas. Isso porque:

  • Ela representa um valor médio
  • Não considera flutuações de demanda
  • Depende diretamente do tempo de viagem

Um sistema pode atender à capacidade mínima exigida e ainda apresentar:

  • Filas em horários críticos
  • Tempos de espera elevados
  • Sensação de ineficiência

Ou seja, atender à norma não significa, necessariamente, atender à expectativa do usuário.

7. Uso Misto: Onde a Norma Exige Interpretação Técnica

Edifícios de uso misto representam um dos cenários mais desafiadores. A norma orienta a separação das populações e a aplicação de percentuais distintos, mas não resolve automaticamente o problema do comportamento combinado. Na prática, surgem questões como:

  • Picos simultâneos ou deslocados entre usos
  • Interferência entre fluxos (moradores e visitantes, por exemplo)
  • Necessidade de estratégias operacionais diferenciadas

Nesses casos, o papel do projetista deixa de ser apenas aplicar a norma e passa a ser interpretar o sistema como um todo.

8. O Fator Humano: A Variável Invisível

Nenhuma equação da norma consegue capturar completamente o comportamento humano. Alguns exemplos práticos:

  • Usuários que pressionam múltiplos botões
  • Atrasos no embarque por indecisão
  • Retenção de portas
  • Uso inadequado do sistema

Esses fatores aumentam o tempo real de operação e reduzem a eficiência do sistema. Por isso, projetos mais robustos consideram margens de segurança além das previstas.

9. Projetar Elevadores é Tomar Decisões, Não Apenas Calcular

O grande ensinamento da NBR 5665 não está nas fórmulas, mas nas decisões que ela exige. O projetista precisa definir:

  • Número de elevadores
  • Capacidade das cabinas
  • Velocidade nominal
  • Tipo de porta
  • Estratégia de operação

Cada uma dessas escolhas impacta diretamente o desempenho do sistema. E mais importante: essas decisões são interdependentes.

Conclusão

O cálculo de tráfego em elevadores é, sem dúvida, uma ferramenta essencial no projeto de transporte vertical. No entanto, sua aplicação eficaz exige mais do que domínio matemático. É necessário compreender o comportamento dos usuários, interpretar corretamente os parâmetros da norma e reconhecer que pequenas decisões podem gerar grandes impactos no resultado final.

Elementos aparentemente simples — como o tipo de porta ou o tempo de embarque — podem alterar significativamente o desempenho do sistema. Da mesma forma, indicadores clássicos como capacidade de transporte e intervalo devem ser analisados de forma crítica, sempre considerando a experiência real do usuário.

Em última análise, projetar elevadores não é apenas dimensionar equipamentos. É projetar fluxo, conforto e eficiência para pessoas. E é justamente nesse ponto que o verdadeiro domínio da NBR 5665 se revela: não na aplicação mecânica de fórmulas, mas na capacidade de transformar critérios técnicos em soluções inteligentes e equilibradas.

SOBRE O AUTOR

Homem sorrindo posando para foto Descrição gerada automaticamente

Eliseu Pereira é Engenheiro Mecânico, pós-graduado em Engenharia de Segurança do Trabalho- CREA-RS 038043, com mais de 40 anos de experiência em projetos, fabricação, instalação e manutenção de elevadores de passageiros e carga, plataformas de acessibilidade, escadas e esteiras rolantes. Atualmente, atua como consultor técnico para diversas empresas do setor de elevadores.

Instagran: eliseuspereira

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