Atenção, leitor: devido à complexidade do tema e à limitações de espaço disponível para redação, o conteúdo deste artigo seguirá sequencialmente ao longo de sucessivas edições da Revista Elevador Brasil.
Como Gestor de Mobilidade Vertical e integrante da equipe técnica da Subdiretoria Geral de Engenharia e Arquitetura da ALERJ, vejo-me no compromisso de monitorar o desempenho operacional dos elevadores, sobretudo no que concerne à ergonomia, eficiência e segurança de todos aqueles que necessitam de transporte vertical para acessar os mais variados pavimentos dos edifícios pertencentes ao Parlamento Fluminense, isto é, o Palácio Tiradentes, de arquitetura eclética datada dos primeiros anos do século XX, e o Edifício Lúcio Costa, uma edificação composta de 34 pavimentos datada dos anos 1960, cuja beleza arquitetônica demonstra os princípios do Modernismo muito preconizados por Le Corbusier.
No Edifício Lúcio Costa, sabidamente, convive-se hoje com uma aparente saturação dos serviços dos elevadores, mormente durante dias e horários com grande movimentação de pessoas nas suas dependências. Nos períodos que compreendem a entrada (entre 09 e 10h30), almoço (entre 12 e 13h30) e encerramento do expediente de trabalho (entre 15 e 18h), há sempre grande concentração de usuários que aguardam a vez de entrar em um elevador que os leve ao pavimento pretendido.
A situação no andar térreo é ainda mais preocupante, por se tratar de um ambiente de passagem de todos os servidores da Casa, além de visitantes que buscam alcançar gabinetes parlamentares, salas de audiência e auditórios, especialmente em ocasiões de realização de eventos vinculados às atividades legislativas.
À vista disso e em virtude de reiteradas reclamações de usuários dos elevadores, esta Gestão de Mobilidade Vertical deve cumprir o dever regulamentar de apresentar à Alta Administração da ALERJ um estudo pormenorizado de Demografia e sua relação direta com o uso dos equipamentos de transporte vertical, a partir do qual se lançará as bases para o cálculo de tráfego nos Elevadores.
Tal investigação foi dividida em 03 (três) fases distintas, conforme a seguir:
FASE I
Preliminarmente, o Cálculo de Tráfego nos Elevadores seguirá o que determina a norma regulamentadora ABNT NBR-5665. Pretende-se, com o modelo proposto na NBR, compreender o nível de serviço de atendimento a usuários que buscam a zona alta do Ed. Lúcio Costa (isto é, do 9º ao 28º andar), através do hall de acesso aos elevadores G, H, I, J, K e L.
Nada obstante a NBR traçar uma série de considerações respeitantes ao modo de ocupação de uma unidade predial composta por vários pavimentos, a equipe de Engenharia da ALERJ buscará compreender a demografia do Ed. Lúcio Costa, através de uma abordagem estatística da série histórica dos dados de movimentação de pessoas em trânsito vertical.
A citada norma técnica traz um método de cálculo da população, porém sugere que tal modelo quantitativo seja empregado nos estágios de concepção e de desenvolvimento do projeto da edificação, a fim de apurar uma relação teórica entre a estimativa populacional e o dimensionamento dos elevadores quanto ao número de equipamentos, capacidade de carga transportada, velocidade etc.
Contudo, modelos não determinísticos que deitam raízes nas Ciências Estatísticas, oferecem maior conexão com o estado atual de uso dos elevadores, uma vez que os mesmos já se encontram em funcionamento há mais de 08 (oito) anos, quando se concluiu o amplo e complexo processo de retrofit do Edifício Lúcio Costa.
Portanto, o tratamento estatístico dos eventos de utilização dos elevadores pode vir a refutar ou a confirmar o que a norma técnica estabelece. Por isso, a análise comparativa entre a doutrina normalizadora e a abordagem estatística servirá como elemento adicional de reflexão, haja vista a grande relevância na compreensão do atual comportamento das populações residente e flutuante do Edifício Lúcio Costa, sobretudo quanto à mobilidade vertical.
FASE II
Em uma segunda etapa de investigação, com universo de observação ainda circunscrito à zona alta, tomar-se-ão a totalidade dos elevadores que atendem aos andares 09 até 28, incluindo-se também os elevadores da zona baixa que atendem solidariamente aos andares 09 até 17. Nesta etapa, os elevadores de serviço estarão excluídos do estudo.
FASE III
A investigação abarcará a totalidade das soluções de transporte vertical para a zona alta (9º ao 28º andar), incluindo-se os equipamentos destinados a serviços de transporte de carga, além dos que servem aos halls de elevadores de passageiros nas zonas alta e baixa. Neste caso, o parque de elevadores somará 11 unidades (03 equipamentos da zona baixa, 06 equipamentos da zona alta e 02 equipamentos de serviço). As três fases acima mencionadas, de certo, oferecerão importantes subsídios, no sentido de melhor compreender a relação entre ocupação dos andares da zona alta do Ed. Lúcio Costa e o grau de eficiência no serviço dos equipamentos ascensores.
FASE I – DINÂMICA POPULACIONAL E CÁLCULO DE TRÁFEGO
1. APRESENTAÇÃO
Para melhor compreender a relação teórica entre a estimativa de ocupação do Ed. Lúcio Costa e o grau de eficiência de atendimento dos elevadores, a norma ABNT NBR-5665 estabelece o modelo quantitativo denominado “Cálculo de Tráfego nos Elevadores”, que propõe a implementação de um sistema de avaliação que demonstre que a capacidade instalada de transporte vertical é compatível com a dinâmica populacional no interior da edificação.
Nesta etapa de estudo, o modelo proposto na NBR será aplicado para compreensão do nível de serviço de atendimento a usuários que buscam a zona alta, isto é, do 9º andar até o 28º andar, através do grupo que integra os elevadores G, H, I, J, K e L.
Adicionalmente, a demografia da edificação terá uma abordagem quantitativa baseada no modelo não determinístico de séries temporais, a fim de verificar a evolução da dinâmica populacional ao longo dos últimos meses. Depois, ter-se-á um estudo de cálculo de médias populacionais, lançando-se mão da teoria estatística de cálculo de intervalos de confiança e testes de hipóteses.
2. CONDIÇÕES GERAIS
Na fase de concepção de projeto de construção e instalação de aparelhos de transporte vertical, a norma ABNT NBR-5665 propõe um modelo de cálculo de uma estimativa inicial da população do edifício. Nesta fase, onde há intenso diálogo entre proprietários e projetistas, construtores e instaladores de elevadores, a NBR introduz o conceito de relação entre área útil do edifício e os valores mínimos de ocupação por habitante residente ou flutuante.
3. FINALIDADE DA EDIFICAÇÃO
Ocorre, entretanto, que antes mesmo de se lançar à busca de um modelo quantitativo de medição da eficiência de serviço dos elevadores, deve-se considerar os aspectos de uso da edificação. Neste quesito, sabe-se que o Ed. Lúcio Costa consiste basicamente de um conglomerado de escritórios mais ou menos distribuídos ao longo de 30 (trinta) pavimentos, além do andar térreo e de três subsolos.
Entretanto, por abarcar todas as funções administrativas e legislativas da ALERJ, esse conglomerado corporativo possui uma formidável população flutuante, mormente em dias de sessões plenárias altamente sensíveis à sociedade fluminense ou a determinados grupos de interesse. Também eleva-se significativamente a população do edifício quando se tem audiências públicas, reuniões de comissões parlamentares, mesas de debates ou, ainda, palestras, cursos e treinamentos ministrados pela Escola do Legislativo.
Por isso, não é exagero também considerar que o Ed. Lúcio Costa, em momentos de alta densidade populacional, possa refletir o comportamento de uma edificação equivalente a uma cadeia de lojas ou mesmo um shopping center em dias festivos de compras. Assim, em virtude da ocorrência ou não de determinados eventos de cunho político ou social, a ocupação do Edifício Lúcio Costa ora comporta-se como uma edificação corporativa de finalidade única, ora como um prédio de escritórios e consultórios com múltiplos objetivos, ora como um centro comercial.
4. ESTIMATIVA DA POPULAÇÃO
4.1. Segundo a normalização técnica:
A NBR-5665 preconiza que a estimativa populacional deve ser calculada baseada nas relações:
- Escritório de uma única entidade: 1 pessoa por 7m² de área útil;
- Escritórios e consultórios de múltiplas finalidades: 1 pessoa por 7m² de área útil;
- Lojas, centros comerciais ou shopping centers: 1 pessoa por 4m² de área útil.
Conquanto a NBR considere somente a área útil para cálculo da estimativa populacional, a equipe técnica de engenharia e arquitetura da ALERJ propõe que se trabalhe de forma preliminar com a área construída. Após, poder-se-á lançar o modelo de cálculo com base na área útil. No caso do Edifício Lúcio Costa, para encontrar as áreas úteis em cada pavimento, far-se-ão deduções normalmente recomendadas para construções em planta livre. Tais deduções somam 25% da totalidade da área construída e são assim discriminadas:
- -10% relativos às caixas de corrida (circulação vertical) e banheiros;
- -15% relativos ao átrio ou hall dos elevadores e corredores de acesso às salas de trabalho.
Ademais, o item 5.1.7 da Norma ordena que, em qualquer edifício, as áreas de pavimentos utilizadas como restaurantes ou refeitórios e depósitos não deverão ser computadas para o cálculo da população. Portanto, o 20º andar será subtraído do cálculo, vez que funciona como pavimento multifuncional, nele abrigando um grande salão refeitório e agência bancária.
Desse modo, chega-se à população teórica de cada um dos andares da zona alta (9º ao 28º andar). Contudo, não se deve esquecer que o cálculo permite apenas uma visão tosca, ainda que razoável, de uma projeção populacional que poderá ou não retratar-se no futuro. Isto é, a NBR-5665 apenas fornecerá uma metodologia que relaciona uma população hipotética com um quantitativo de elevadores, respeitando-se as possíveis configurações e os parâmetros de fabricação desses equipamentos.
Como o Edifício Lúcio Costa já se encontra em funcionamento há mais de oito anos, com plena capacidade de ocupação e de utilização de seus espaços físicos disponíveis, é possível que as estimativas populacionais sejam refutadas ou até confirmadas, tudo dependendo de uma medição atualizada da demografia de cada um dos seus pavimentos.
Do quadro acima apresentado, tem-se a observar o seguinte:
- Área total construída entre o 9º andar e o 28º andar, excluído o 20º andar: 21.729,74m²;
- População estimada considerando o perfil de entidade única ou de escritórios e consultórios de uso geral: 3.104 habitantes;
- População estimada considerando o perfil de cadeia de lojas, centro comercial ou shopping center: 5.432 habitantes.
[Querido leitor, o conteúdo seguirá na próxima edição da revista Elevador Brasil. Grande abraço!]
SOBRE O AUTOR
Marco Calixto Gonzaga é Máster Técnico em Equipamentos de Elevação por la Escuela de Postigrado Industrial de Lérida, Espanha. Especialista em Engenharia de Manutenção pela Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É Analista de Sistemas e Químico Tecnológico (CRQ-RJ 3251371) e atualmente é Gestor de Mobilidade Vertical da Subdiretoria-Geral de Engenharia e Arquitetura da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. E-mail: [email protected]







