INTRODUÇÃO
A segurança das pessoas que atuam na instalação, inspeção, manutenção e resgate em elevadores sempre foi uma preocupação central das normas técnicas aplicáveis ao setor. Entretanto, a evolução tecnológica dos equipamentos e a necessidade de reduzir riscos ocupacionais levaram ao desenvolvimento de requisitos cada vez mais específicos para a proteção dos profissionais que acessam áreas críticas da instalação.
Nesse contexto, a ABNT NBR 16858-1:2020, baseada na norma europeia EN 81-20, introduziu critérios mais rigorosos para a definição dos espaços de segurança existentes na caixa do elevador. Entre as principais mudanças destacam-se os requisitos estabelecidos para os espaços de refúgio localizados no topo do carro e no poço, previstos respectivamente nos itens 5.2.5.7 e 5.2.5.8 da norma.
Esses requisitos têm por finalidade garantir que, mesmo em situações extremas de deslocamento do carro ou de compressão total dos amortecedores, existam volumes livres capazes de preservar a integridade física das pessoas que estejam desenvolvendo atividades nessas regiões. Dessa forma, os espaços de refúgio deixam de ser apenas uma folga construtiva e passam a constituir um elemento essencial da engenharia de segurança aplicada aos elevadores modernos.
Conceito Normativo de Volume de Refúgio
A norma substitui a antiga ideia genérica de “espaço livre” por um conceito mais preciso: volume de refúgio associado à postura do trabalhador. Isso significa que o projetista não dimensiona apenas uma altura, mas um volume tridimensional compatível com a postura que poderá ser adotada pelo trabalhador durante as atividades de instalação, inspeção, manutenção ou resgate.
São previstas três configurações básicas de refúgio:
- Postura em pé (Refúgio na última altura e poço)
- Base: 0,40 m × 0,50 m
- Altura mínima: 2,00 m
- Postura agachada (Refúgio na última altura e poço)
- Base: 0,50 m × 0,70 m
- Altura mínima: 1,00 m
- Postura deitada (aplicável ao poço)
- Base: 0,70 m × 1,00 m
- Altura mínima: 0,50 m


A adoção dessas diferentes configurações reconhece que nem todas as instalações possuem as mesmas características geométricas. Em determinadas situações, especialmente em modernizações ou em edifícios com limitações construtivas, a proteção pode ser obtida por volumes compatíveis com posições agachadas ou deitadas, desde que sejam atendidos todos os requisitos estabelecidos pela norma. Essa abordagem transforma o espaço de segurança em um critério efetivo de engenharia, diretamente relacionado à análise de riscos e à proteção das pessoas.
Espaço de Refúgio no Topo do Carro – Figuras 1 e 2
Quando o carro atinge sua posição extrema superior, deve permanecer disponível um volume de refúgio suficiente para proteger as pessoas que eventualmente estejam trabalhando sobre ele. As Figuras 1 e 2 apresentam as dimensões mínimas de altura e área exigidas para a constituição do volume de refúgio no topo do carro, considerando a situação mais crítica, quando a cabina se encontra em sua posição extrema superior.

O dimensionamento desse espaço exige uma análise cuidadosa de diversos fatores, entre os quais se destacam o curso total do elevador, o sobre curso superior, a compressão dos amortecedores, a posição dos componentes instalados sobre o carro, os guarda-corpos e os dispositivos de operação e inspeção. O volume de refúgio deve permanecer totalmente livre de interferências. Nenhum elemento fixo ou móvel pode invadir a região destinada à proteção do trabalhador.
A verificação desse requisito está diretamente relacionada ao cálculo do sobre curso superior e às condições extremas de operação previstas pela norma. Pequenas alterações em componentes instalados sobre o carro podem afetar significativamente a disponibilidade do volume de refúgio e, consequentemente, a conformidade do projeto.
Nos casos em que seja prevista a atuação simultânea de mais de uma pessoa sobre o topo do carro, deve existir um espaço de refúgio individual para cada ocupante. Além disso, a norma exige sinalização indicando claramente o número máximo de pessoas permitido e a postura correspondente ao volume disponível.
Espaço de Refúgio no Poço – Figuras 3 e 4
No poço, a condição crítica considerada pela norma ocorre quando o carro se encontra apoiado sobre os amortecedores totalmente comprimidos. Mesmo nessa situação extrema, deve existir espaço suficiente para garantir a proteção das pessoas que possam estar no fundo da caixa. As figuras 3 e 4 apresentam as dimensões mínimas de altura e área exigidas para a constituição do volume de refúgio no poço do elevador, considerando a condição mais crítica de projeto, quando a cabina se encontra em sua posição extrema inferior e apoiada sobre os amortecedores totalmente comprimidos.

O dimensionamento do espaço de refúgio no poço normalmente apresenta maior complexidade devido à concentração de componentes mecânicos e elétricos nessa região. Polias de desvio, dispositivos de tensionamento, sensores, cabos de compensação e diversos elementos estruturais disputam espaço com as áreas destinadas à segurança.
Falsos espaços de Refúgio – Figuras 5 e 6
As Figuras 5 e 6 apresentam exemplos de áreas que não podem ser consideradas espaços de refúgio, pois estão sujeitas à interferência de componentes do elevador e, consequentemente, não atendem aos requisitos de segurança estabelecidos pela ABNT NBR 16858-1. A Figura 5 representa a projeção do protetor da soleira e a Figura 6 representa a região ocupada pela projeção dos cabos de comando ou das correntes de compensação.

Figura 5 Figura 6
A correta identificação dessas limitações é fundamental para assegurar que os espaços de refúgio efetivamente cumpram sua função de proteção.
- A Importância da Sinalização
A segurança proporcionada pelos espaços de refúgio não depende apenas de suas dimensões geométricas. A sinalização adequada também desempenha papel fundamental para garantir que essas áreas sejam corretamente identificadas e utilizadas. A Figura 7 apresenta um exemplo de área que pode ser considerada espaço de refúgio, pois não está sujeita à interferência de componentes do elevador e, consequentemente atende aos requisitos de segurança estabelecidos pela ABNT NBR 16858-1.
A norma exige que as informações sejam claramente visíveis a partir dos pontos de acesso, indicando, no mínimo, o número máximo de pessoas permitido e a postura correspondente ao volume disponível. A sinalização deve estar instalada em local visível, conforme ilustrado na Figura 8. As Figuras 9, 10 e 11 apresentam os diferentes tipos de posturas previstos pela norma.

Figura 7 Figura 8

Essa exigência demonstra que os espaços de refúgio devem ser entendidos não apenas como elementos construtivos, mas também como parte integrante do sistema de comunicação de segurança do elevador. Nesse contexto, geometria, ergonomia, análise de riscos e sinalização passam a atuar de forma conjunta para garantir a proteção dos profissionais envolvidos nas atividades de manutenção e inspeção.
- Segurança como Responsabilidade de Projeto
O atendimento aos requisitos de espaço de refúgio não deve ser tratado como uma simples verificação de conformidade ao final do projeto. Trata-se de uma condição que deve ser considerada desde as etapas iniciais de concepção do elevador.
Cada centímetro disponível no topo do carro ou no poço representa uma margem adicional de proteção contra riscos de esmagamento, aprisionamento e impacto. Por essa razão, o dimensionamento adequado desses volumes deve integrar o memorial de cálculo e as análises de segurança realizadas durante o desenvolvimento do equipamento.
Mais do que uma obrigação normativa, os espaços de refúgio representam a materialização do compromisso da engenharia com a preservação da vida humana.
- Conclusão
Os requisitos de espaços de refúgio introduzidos pela ABNT NBR 16858-1 representam um dos avanços mais significativos na segurança dos elevadores das últimas décadas. Ao estabelecer critérios baseados em posturas humanas e em cenários extremos de operação, a norma incorpora a análise de riscos diretamente ao projeto do elevador e amplia a proteção dos profissionais responsáveis por sua instalação, manutenção, inspeção e resgate.
Mais do que cumprir requisitos regulamentares, projetar adequadamente os espaços de refúgio significa reconhecer que a segurança das pessoas deve estar presente em todas as etapas da concepção do equipamento. Dessa forma, os volumes de refúgio consolidam-se como um dos principais elementos da engenharia de segurança aplicada ao transporte vertical moderno.






