Projeto propõe modelo nacional de crédito para impulsionar a modernização de elevadores

Iniciativa aposta na integração entre empresas, fornecedores, condomínios e instituições financeiras para fortalecer o mercado do transporte vertical

A dificuldade de viabilizar financeiramente projetos de modernização ainda é um dos principais entraves para a renovação do parque brasileiro de elevadores. Em muitos condomínios, intervenções importantes acabam sendo adiadas devido ao alto custo das obras ou à dificuldade de aprovação de investimentos em assembleia. Ao mesmo tempo, empresas independentes do setor frequentemente enfrentam limitações de capital para executar projetos de maior porte e ampliar sua competitividade.

Foi a partir desse cenário que nasceu o Projeto Nacional de Fomento ao Mercado de Elevadores, idealizado por Celso Moraes, em parceria com a 4×8 Soluções Financeiras, e desenvolvido a partir da oportunidade identificada pelo consultor Ivo Ramos de Oliveira. A proposta é estruturar um modelo de crédito especializado para atender às particularidades do segmento. Mais do que oferecer financiamento, a iniciativa pretende integrar toda a cadeia produtiva — reunindo condomínios, empresas de manutenção e modernização, fornecedores e instituições financeiras para estimular investimentos em segurança, acessibilidade, inovação e valorização patrimonial.

Nesta entrevista exclusiva à Revista Elevador Brasil, Ivo Ramos explica como o projeto foi concebido, seus diferenciais e o potencial de transformar a forma como o mercado brasileiro financia a modernização de elevadores.

Como surgiu a ideia de criar o Projeto Nacional de Fomento ao mercado de elevadores?

A ideia surgiu da observação de uma necessidade concreta e recorrente do setor. Muitos condomínios precisam modernizar seus elevadores, substituir componentes, realizar adequações técnicas ou executar manutenções de maior porte, mas acabam adiando essas decisões por falta de recursos ou pela dificuldade de aprovar chamadas extraordinárias em assembleia. Ao mesmo tempo, empresas independentes de manutenção e modernização possuem conhecimento técnico, carteira de clientes e capacidade de execução, mas frequentemente enfrentam limitações de capital de giro para adquirir peças, negociar melhores condições com fornecedores e oferecer propostas comerciais mais acessíveis aos condomínios.

Percebemos, portanto, que o desafio do mercado não era apenas técnico. Era também financeiro, operacional e estrutural. O projeto nasceu para conectar essas diferentes pontas: condomínios que precisam investir, empresas independentes que necessitam de capacidade financeira para executar os serviços, fornecedores interessados em ampliar suas vendas e instituições financeiras que buscam operações de crédito com finalidade claramente definida. Por isso, a iniciativa não deve ser entendida apenas como uma linha de financiamento. Trata-se de uma proposta de desenvolvimento setorial, criada para organizar e fortalecer todo o ecossistema brasileiro de elevadores.

O que torna esse modelo mais adequado para o mercado de elevadores?

O mercado de elevadores possui características muito específicas. São equipamentos essenciais para a mobilidade, a acessibilidade, a segurança e o funcionamento dos edifícios. Uma falha pode afetar diretamente moradores, visitantes, trabalhadores e usuários de condomínios residenciais, hospitais, hotéis, centros comerciais e edifícios corporativos. Além disso, os projetos normalmente envolvem valores relevantes, componentes especializados, responsabilidade técnica, mão de obra qualificada, cronogramas de execução e, em muitos casos, aprovação em assembleia condominial.

Uma linha de crédito genérica dificilmente consegue compreender e integrar todas essas variáveis. O modelo proposto é mais adequado porque reúne três dimensões que normalmente são tratadas separadamente: crédito, conhecimento técnico e execução operacional. O financiamento passa a estar conectado ao diagnóstico do equipamento, ao orçamento da obra, à capacidade de pagamento, à qualificação da empresa executora e ao fornecimento das peças. Essa integração reduz incertezas, melhora a gestão dos riscos e aumenta a possibilidade de que os projetos de modernização sejam efetivamente executados.

Quais são os principais diferenciais dessa proposta em relação às linhas de crédito tradicionais oferecidas pelos bancos?

O principal diferencial é a especialização. As linhas de crédito tradicionais normalmente analisam o condomínio ou a empresa como tomadores genéricos, sem considerar de forma aprofundada as particularidades técnicas, financeiras e operacionais do mercado de elevadores. A proposta do projeto é diferente porque nasce estruturada especificamente para o setor. Ela considera o diagnóstico técnico, o orçamento da intervenção, o cronograma de execução, a capacidade financeira do tomador, a participação da empresa executora e o fornecimento dos equipamentos. Entre os principais diferenciais estão:

  • Análise de crédito adaptada à realidade financeira dos condomínios e das empresas independentes;
  • Vinculação dos recursos a projetos e equipamentos previamente definidos;
  • Integração entre financiamento, fornecedores e empresas executoras;
  • Possibilidade de prazos mais compatíveis com o porte dos investimentos;
  • Parcelas ajustadas à capacidade financeira do tomador;
  • Acompanhamento documental e técnico da operação;
  • Liberação dos recursos de forma integral ou vinculada a etapas da execução;
  • Participação de fornecedores homologados e empresas qualificadas;
  • Maior transparência sobre a aplicação dos recursos.

Não se trata apenas de disponibilizar dinheiro. A proposta é oferecer uma estrutura capaz de gerar segurança, previsibilidade e eficiência para toda a cadeia.

Na prática, como funciona o modelo de financiamento?

O modelo funciona como uma ponte entre a necessidade técnica identificada no equipamento e uma solução financeira adequada para viabilizar o projeto. O condomínio, a administradora ou a empresa responsável pela manutenção identifica uma demanda, que pode envolver modernização, retrofit, substituição de componentes, adequação técnica, manutenção corretiva de maior porte ou aquisição de equipamentos. A partir dessa necessidade, é elaborado um diagnóstico técnico contendo o escopo da intervenção, os equipamentos e serviços necessários, o orçamento e o cronograma estimado de execução.

Essas informações são organizadas em uma proposta técnica e financeira, que é encaminhada para análise da instituição parceira. O objetivo é transformar um investimento elevado e concentrado em parcelas planejadas e compatíveis com a capacidade financeira do condomínio ou da empresa. Diferentemente de uma linha de crédito genérica, a operação considera a finalidade dos recursos, o tipo de intervenção, os fornecedores envolvidos e as características específicas do mercado de elevadores.

Como acontece o processo desde a solicitação do crédito até a liberação dos recursos para empresas independentes e condomínios?

O processo foi concebido para ser objetivo, transparente e seguro. A primeira etapa é a identificação da necessidade técnica. A empresa especializada realiza uma avaliação do equipamento, define o escopo do projeto e apresenta o orçamento, o cronograma e a relação de peças e serviços necessários. Na sequência, são reunidos os documentos necessários para a análise de crédito.

No caso dos condomínios, podem ser avaliados documentos como CNPJ, convenção, ata da assembleia que aprovou a contratação, arrecadação mensal, índice de inadimplência, capacidade de pagamento, orçamento da obra e documentos da administração condominial. Para as empresas independentes, a análise pode considerar faturamento, histórico de operação, capacidade de pagamento, finalidade do crédito, carteira de contratos, fornecedores envolvidos e orçamento dos equipamentos ou insumos que serão adquiridos.

Após a aprovação, o contrato é formalizado e os recursos podem ser liberados de forma integral ou por etapas, dependendo das características e do porte do projeto. Em obras mais complexas, a liberação poderá ser vinculada a marcos de execução, mediante apresentação de notas fiscais, comprovação da compra de componentes, cumprimento do cronograma e, quando aplicável, validação técnica ou vistoria. Esse modelo de liberação controlada aumenta a segurança da operação e garante que os recursos sejam efetivamente direcionados ao projeto aprovado, protegendo o condomínio, a empresa executora, o fornecedor e a instituição financeira.

Quais tipos de projetos e equipamentos poderão ser financiados?

O projeto poderá contemplar diferentes necessidades do mercado de elevadores, desde intervenções pontuais até modernizações mais abrangentes. Entre os projetos potencialmente elegíveis estão:

  • Modernização parcial ou completa de elevadores;
  • Retrofit de equipamentos;
  • Substituição ou atualização de quadros de comando;
  • Troca de componentes elétricos, eletrônicos, hidráulicos e mecânicos;
  • Substituição ou modernização de máquinas de tração;
  • Instalação de inversores de frequência;
  • Modernização de portas, cabinas, botoeiras e sistemas de sinalização;
  • Instalação ou atualização de dispositivos de segurança;
  • Adequações de acessibilidade;
  • Implantação de sistemas de monitoramento remoto e manutenção preditiva;
  • Projetos de eficiência energética;
  • Manutenção corretiva de maior porte;
  • Aquisição de peças, equipamentos e insumos;
  • Capital de giro vinculado à execução de projetos por empresas independentes.

O princípio central é que o crédito tenha finalidade claramente definida e esteja associado a intervenções que promovam segurança, confiabilidade, eficiência operacional, acessibilidade, redução de custos e valorização do patrimônio.

A segurança dos elevadores é um dos principais desafios do setor. Como facilitar o acesso ao crédito pode acelerar a modernização do parque instalado e aumentar a segurança dos usuários?

A segurança está diretamente relacionada à capacidade de investimento. Muitos condomínios reconhecem a necessidade de modernizar seus equipamentos, mas postergam a decisão em razão do alto valor do investimento ou do impacto de uma cobrança extraordinária sobre os moradores. Como consequência, elevadores com componentes desgastados, sistemas defasados ou maior incidência de falhas permanecem em operação por mais tempo. Isso pode elevar os custos de manutenção, aumentar as interrupções e reduzir a confiabilidade dos equipamentos.

O financiamento estruturado oferece uma alternativa concreta para que o condomínio não precise escolher entre comprometer todo o seu caixa ou adiar uma intervenção importante. Ao transformar um investimento elevado em parcelas planejadas, o crédito pode facilitar a aprovação da obra em assembleia, reduzir a resistência dos condôminos e antecipar projetos de modernização.

Com isso, torna-se possível substituir componentes obsoletos, atualizar sistemas de comando, instalar novos dispositivos de segurança, melhorar a comunicação de emergência, aumentar a eficiência operacional e adequar os equipamentos às exigências técnicas aplicáveis. Portanto, o crédito bem estruturado não é apenas um instrumento financeiro. Ele também funciona como uma ferramenta de prevenção, segurança e preservação patrimonial.

Quais foram os maiores desafios para estruturar essa proposta?

O principal desafio foi transformar uma necessidade reconhecida pelo mercado em um modelo viável, seguro, sustentável e escalável. Identificar a demanda por crédito foi apenas o primeiro passo. Foi necessário pensar em como os recursos seriam liberados, quais seriam as responsabilidades de cada participante, como condomínios e empresas seriam analisados, como os fornecedores participariam e quais mecanismos seriam utilizados para controlar os riscos.

Outro desafio relevante foi conciliar os interesses de todos os envolvidos. O condomínio busca prazo, previsibilidade e parcelas compatíveis com seu orçamento. A empresa de elevadores precisa de recursos para adquirir componentes e executar o serviço. O fornecedor deseja segurança no recebimento e aumento do volume de negócios. A instituição financeira precisa de critérios de risco, retorno e rastreabilidade. E a estrutura responsável pelo projeto deve integrar todos esses participantes de maneira clara e eficiente.

Também foi indispensável considerar a governança técnica, a segurança jurídica, a responsabilidade profissional, a documentação dos projetos e o cumprimento das normas aplicáveis. Estamos tratando de equipamentos que exercem uma função essencial nos edifícios e que impactam diretamente a segurança e a mobilidade das pessoas. Por isso, a estruturação do projeto exige rigor, responsabilidade e participação de profissionais qualificados.

O projeto já possui instituições financeiras parceiras ou negociações em andamento?

O projeto está em fase de estruturação e construção de parcerias estratégicas. Estão sendo avaliados modelos de cooperação com instituições financeiras, cooperativas de crédito, fintechs e outros agentes interessados em desenvolver uma solução específica para o mercado de elevadores. Também está prevista a aproximação com administradoras de condomínios, empresas independentes, fabricantes, distribuidores e fornecedores de componentes.

O objetivo é construir uma operação responsável e sustentável. Não basta apenas disponibilizar crédito. É necessário definir critérios claros de análise, documentação, governança, qualificação técnica, liberação dos recursos e acompanhamento da execução. Por essa razão, o trabalho atual está concentrado na validação do modelo, no desenvolvimento do fluxo operacional e na apresentação da oportunidade a potenciais parceiros financeiros e institucionais. As parcerias serão anunciadas à medida que forem formalizadas.

Quais são os próximos passos para sua implementação e quando o mercado poderá começar a utilizar essa solução?

Os próximos passos incluem a consolidação do modelo operacional, a definição dos critérios técnicos e financeiros, a padronização dos documentos e o desenvolvimento das parcerias necessárias para viabilizar as primeiras operações. Também será necessário estruturar o processo de credenciamento de empresas e fornecedores, os mecanismos de análise dos projetos e a forma de acompanhamento da aplicação dos recursos. A implementação deverá ocorrer gradualmente, começando por uma operação-piloto em uma região com concentração relevante de condomínios, empresas de manutenção e fornecedores do setor.

Esse piloto permitirá validar todo o fluxo: diagnóstico técnico, elaboração do projeto, solicitação do crédito, análise financeira, aprovação, contratação, liberação dos recursos, execução dos serviços e acompanhamento dos resultados. A partir dessa experiência, será possível realizar ajustes, aperfeiçoar os critérios e preparar a expansão para outras regiões. O mercado poderá começar a acessar a solução por meio das primeiras operações-piloto e dos parceiros selecionados, após a formalização das parcerias financeiras e a conclusão da validação operacional.

Qual é a sua expectativa para os próximos anos?

A expectativa é que o crédito especializado se torne uma ferramenta importante para acelerar a modernização dos elevadores no Brasil. O mercado possui uma demanda recorrente: há equipamentos que precisam ser atualizados, condomínios com limitações orçamentárias, empresas independentes buscando maior competitividade e fornecedores interessados em ampliar suas operações. Com uma solução simples, segura e confiável, será possível criar uma nova cultura de investimento no setor, substituindo decisões emergenciais e intervenções meramente corretivas por um planejamento de modernização mais preventivo e estruturado.

Nossa visão é desenvolver uma plataforma nacional capaz de conectar demanda, crédito, fornecedores e execução técnica, tornando os projetos mais acessíveis, previsíveis e transparentes. Ao longo dos próximos anos, a iniciativa poderá contribuir para fortalecer as empresas independentes, movimentar fabricantes e distribuidores, estimular a inovação tecnológica e elevar progressivamente o padrão de segurança do parque instalado.

Como você imagina que essa iniciativa poderá transformar o mercado brasileiro de elevadores caso seja amplamente adotada?

Se for amplamente adotada, a iniciativa poderá transformar o mercado em diferentes níveis. Para os condomínios, a modernização deixará de ser uma decisão constantemente adiada por falta de caixa e passará a ser um investimento planejável, com prazo, orçamento e parcelas previsíveis. Para as empresas independentes, o projeto poderá representar maior capacidade de execução, aumento da competitividade, crescimento das vendas e possibilidade de oferecer soluções mais completas aos clientes.

Para fabricantes, distribuidores e fornecedores, o modelo poderá gerar maior previsibilidade de demanda, expansão do volume de negócios e fortalecimento da cadeia produtiva. Para as instituições financeiras, poderá surgir uma nova vertical de crédito especializado, com finalidade definida, documentação estruturada e potencial de escala nacional. Para os usuários, o principal impacto será percebido na segurança, na confiabilidade, no conforto e na disponibilidade dos equipamentos.

A grande transformação consiste em organizar uma cadeia que atualmente ainda opera de maneira fragmentada. Quando financiamento, conhecimento técnico, fornecimento de componentes e execução passam a atuar de forma integrada, todo o setor evolui. O mercado poderá migrar de uma lógica predominantemente reativa, baseada em falhas e reparos emergenciais, para uma cultura preventiva de manutenção, atualização tecnológica e modernização contínua.

Não estamos falando apenas de financiar obras em elevadores. Estamos falando de criar uma infraestrutura de desenvolvimento capaz de modernizar o parque instalado, fortalecer empresas brasileiras, gerar negócios e empregos qualificados e elevar o padrão de segurança do transporte vertical no país.

Financiar a modernização é investir em segurança, tecnologia, acessibilidade e valorização do patrimônio. Quando o acesso às oportunidades é ampliado, todo o setor evolui.

 

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