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Acidentes

Acidentes com elevadores em 2025

Acidentes com elevadores em 2025
Foto: Reprodução/TV Sergipe

Até quando vamos fingir que está tudo bem?

Estamos falando de um equipamento que transporta vidas todos os dias e esconde uma verdade incômoda: está virando um campo minado silencioso. Enquanto construtoras, fabricantes, usuários e até profissionais da área comemoram “soluções criativas” e equipamentos mais baratos na internet, a conta vem em forma de tragédia. A engenharia está sendo ignorada, desrespeitada e atropelada por interesses comerciais.

E os números de 2025 escancaram isso. De janeiro a 25 de junho de 2025, foram registrados:

  • 35 acidentes
  • 17 mortes
  • 64 pessoas envolvidas

No mesmo período de 2024:

  • 19 acidentes
  • 14 mortes
  • 53 pessoas envolvidas

Estamos falando de um aumento percentual em apenas um ano:

  • 84,2% no número de acidentes
  • 21,4% no número de mortes
  • 20,8% no número de pessoas envolvidas

Isto é, apenas os noticiados pela mídia. Então esse número pode ser ainda maior.

Conteúdo do artigo

Onde está o erro?

Dizer que o problema é apenas falta de manutenção é superficial e confortável. O buraco é mais embaixo e começa muito antes da primeira falha mecânica. Veja os principais fatores técnicos que explicam esse cenário:

Manutenção preventiva apenas no papel: contratos que existem, mas não são cumpridos. Técnicos pressionados a cumprir metas, sem tempo para análises profundas. Elevadores operando no limite, mesmo com sinais claros de desgaste.

Projetos mal executados: instalações feitas sem integração entre engenharia mecânica, elétrica e civil. Acesso precário, ausência de redundância nos sistemas. Resultado: risco embutido desde o início.

Falta de memorial de cálculo: elevadores sendo instalados sem nenhuma validação técnica formal. Sem memoriais e sem responsabilidade legal. Engenharia ignorada deliberadamente.

Aplicação incorreta de normas: quando a norma é aplicada de forma equivocada, o equipamento até parece legal, mas não é seguro.

Equipamentos fora de norma: plataformas e elevadores fabricados com materiais e padrões fora das exigências mínimas da ABNT. Produtos vendidos como “acessíveis” que não passariam por qualquer auditoria séria.

Economia irresponsável: construtoras e síndicos que escolhem o mais barato, mesmo sabendo que o mais barato não garante segurança.

Soluções improvisadas sendo romantizadas: Adaptações fora de norma apresentadas como criatividade. A verdade é simples: se não tem embasamento técnico, não é solução, mas sim risco.

A pergunta que precisa ser feita…

Elevador ainda é o meio de transporte mais seguro do mundo? A engenharia diz que sim. As normas também. Mas os números, os relatórios, os poços manchados de sangue dizem outra coisa. O que estamos vendo é uma inversão de valores.

Elevador virou negócio, não projeto. Virou oportunidade de lucro, não de transporte seguro. Virou linha de custo a ser reduzida, mesmo que à custa da vida de alguém. Elevadores estão literalmente caindo. Pessoas estão morrendo. E, ainda assim, seguimos ouvindo desculpas técnicas vazias, discursos ensaiados e promessas de melhoria que não saem do papel.

Até quando? Até quando vamos tolerar que memorial de cálculo continue sendo ignorado? Até quando vamos permitir que profissionais sem qualificação técnica projetem e assinem sistemas que transportam famílias inteiras todos os dias? Até quando vamos fingir que “está tudo certo” com elevadores instalados em obras que nunca viram um engenheiro habilitado? Alguns ainda dizem que esse tipo de alerta é sensacionalismo. Que é a “mídia do medo”. Não é. É engenharia com responsabilidade social.

Sou um dos poucos que colocam a cara a tapa nesse assunto. Enquanto muitos preferem se calar para não se indispor, eu escolhi falar. Falar a verdade, mesmo que ela incomode. Porque viver em silêncio para acobertar erros é viver uma mentira. E quem trabalha com engenharia sabe: erro não se esconde, se corrige.

O elevador pode até ser o meio de transporte mais seguro do mundo. Mas no Brasil de hoje, com o cenário que se desenha ano após ano, essa frase virou falácia. E a cada novo acidente, ela perde ainda mais o sentido. Não é mais uma questão de tecnologia. É uma questão de postura, ética e responsabilidade técnica. De parar de fingir que basta uma ART com número de CREA para garantir segurança.

É hora de dizer a verdade. É hora de responsabilizar quem assina, quem vende, quem projeta e quem finge não ver. Porque a negligência que hoje poupa centavos, amanhã custa uma vida.

Carlos Eduardo dos Santos
Sobre o autor

Carlos Eduardo dos Santos

Carlos Eduardo é Engenheiro Mecânico e Engenheiro de Segurança do Trabalho, com mais de 15 anos de experiência na área de transportes verticais. É proprietário da ON Soluções em Engenharia, empresa especializada em auditorias, vistorias técnicas, projetos e treinamentos em elevadores, escadas e esteiras rolantes. Atuou nas três maiores fabricantes de elevadores do mundo, acumulando experiência prática em campo, projetos e manutenção. Atualmente, também é professor de pós-graduação e cofundador do Engenheiros do Elevador, a primeira comunidade brasileira dedicada à capacitação de engenheiros e tecnólogos mecânicos para atuação independente em vistorias e inspeções técnicas. É membro do Comitê Nacional da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), participando de estudos, revisões e atualizações de normas relacionadas a cabos de aço, elevadores, plataformas de acessibilidade e escadas/esteiras rolantes. Associado ao IBAPE-ES (Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia) e Inspetor do CREA-ES em cargo honorífico. Possui ainda formação técnica em Mecânica e Eletrônica.