Relatório preliminar aponta falhas de manutenção como causa do acidente no Elevador da Glória, em Lisboa

Documento do GPIAAF revela que cabo usado no bondinho não tinha certificação para transporte de passageiros e não era adequado para o tipo de instalação do elevador

Imagem: Reuters

Um relatório preliminar divulgado nesta segunda-feira (20) pelo Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF) apontou que o acidente com o Elevador da Glória, em Lisboa, foi causado por falhas na manutenção e na supervisão técnica do equipamento.

Cabo defeituoso e sem certificação provocou o rompimento

Segundo o documento, o cabo subterrâneo que equilibrava as duas cabines se partiu, provocando o descarrilamento e a colisão com um prédio na Calçada da Glória.
O componente, comprado em 2022 pela Carris, empresa responsável pelo transporte público de Lisboa, não possuía certificação para o transporte de pessoas e não era adequado para o tipo de instalação do elevador.

A parte do cabo que rompeu não podia ser inspecionada visualmente sem a desmontagem de equipamentos, o que impediu a identificação prévia do problema. A ruptura ocorreu no ponto de fixação do cabo dentro da cabine nº 1, que havia partido do topo da ladeira.

Registros falsos e falha no sistema de freios

O GPIAAF identificou que tarefas de manutenção eram registradas como concluídas, embora nem sempre tivessem sido realmente executadas. “Há evidências de que tarefas de manutenção registradas como cumpridas nem sempre correspondem às tarefas efetivamente realizadas, bem como de serem executadas tarefas críticas para a segurança de forma não padronizada, com parâmetros de execução e validação díspares”, diz o relatório.

O sistema de freio de emergência, acionado pelo motorista após o rompimento do cabo, também falhou — e nunca havia sido testado previamente. A supervisão da Carris e da empresa terceirizada responsável pela manutenção também foi considerada deficiente. As inspeções constavam nos registros, mas não há garantias de que tenham ocorrido de fato.

Tragédia deixou 16 mortos e 20 feridos

O descarrilamento do Elevador da Glória, em 3 de setembro, matou 16 pessoas — 11 delas estrangeiras — e deixou outras 20 feridas. O bondinho, inaugurado em 1885, é um dos principais símbolos turísticos de Lisboa, ligando a Praça dos Restauradores ao Bairro Alto, em uma encosta de 265 metros.

O GPIAAF ressaltou que as informações ainda são preliminares e que “a culpa ou responsabilidade de qualquer organização ou pessoa envolvida no incidente não deve ser presumida”. O relatório final deve ser concluído em até 11 meses.

Enquanto isso, todos os bondinhos de Lisboa permanecem fora de serviço, até que sejam realizadas novas verificações de segurança e revisão completa dos sistemas de freios.
O órgão também recomendou que a Carris implemente um novo sistema de gestão de segurança alinhado às normas europeias e defendeu o fim da brecha legal que isenta os elevadores históricos da mesma fiscalização aplicada a outros transportes por cabo.

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