Relação entre quantidade de usuários de transporte vertical e número de elevadores instalados em edifícios corporativos (parte 3 – final)
Prezado Leitor: nada obstante as partes 1 e 2 deste artigo terem sido publicadas sequencialmente nas edições 194 e 195, para iniciar o diálogo nesta seção final, trazemos logo nas primeiras linhas um breve resumo do conteúdo já tratado. Fazemos deste modo em nome do compromisso de mantê-lo bem informado, além de evitar possível prejuízo no entendimento do tema que pretendemos expor em continuação.
Conforme já comentamos nas partes anteriores, o objetivo deste estudo é entender se a capacidade instalada dos aparelhos de transporte vertical atende satisfatoriamente a uma realidade de ocupação dos pavimentos de um edifício que já se encontra em pleno funcionamento. Isto posto, passemos à síntese do que foi comentado nas edições 194 e 195:
1. No Edifício Lúcio Costa, sede administrativa e legislativa do Parlamento Fluminense, há uma aparente saturação dos serviços dos elevadores;
2. O objeto de estudo está restrito à zona alta, isto é, do 9º ao 28º pavimento da edificação, com área útil de cerca de 16.000,00m², sendo atendida por seis elevadores;
3. Aplicando-se rigorosamente a NBR-5665, obtém-se um valor teórico de ocupação (VTOmax) do edifício que não deve ser superior a 2.328 habitantes/dia, em face das suas características de uso corporativo de finalidade única.
4. Na realidade, porém, os dados observados na sala de controle predial da Subdiretoria Geral de Engenharia e Arquitetura demonstram que, atualmente, a ocupação demográfica da zona alta do Edifício Lúcio Costa ocorre dentro do intervalo entre 2.000 e 4.000 usuários de elevadores, sendo este o principal fator que explica a densidade populacional em dias úteis de trabalho.
5. Ademais, o cálculo dos Índices de Variação Estacional mostram que o número de usuários de elevadores da zona alta do Edifício Lúcio Costa pode alcançar 20,0% acima do valor médio mensal. Ao contrário do que se pode observar em um período de baixa densidade, podendo ocorrer uma substancial queda de cerca de 40,0% sobre o valor médio mensal.
Partindo-se, então, dessas cinco premissas já suficientemente discutidas nas partes 1 e 2 deste artigo, podemos auferir algumas conclusões mesmo que parciais, sobre o valor real que representa a população diária do Edifício Lúcio Costa. Vejamos:
Conclusão Parcial 01: Conforme se pontuou na quarta premissa acima, considera-se a margem diária entre 2.000 e 4.000 pessoas, como sendo o intervalo de frequência de habitantes do 9º ao 28º pavimento que chegam aos seus locais de trabalho pelos elevadores da zona alta do prédio. Em assim sendo, somos inclinados a calcular a média dos extremos desse intervalo, assim obtendo uma estimativa populacional de 3.000 pessoas que visitam diariamente os andares superiores do Edifício Lúcio Costa.
Conclusão Parcial 02: Já a quinta premissa, nos move a observar as ocorrências mais recentes relativas aos meses de máxima e mínima incidências populacionais. Neste caso, verificamos que o mês de janeiro/2026 refere-se ao extremo mínimo mais recente que deverá corresponder a 60,0% do valor médio populacional. De acordo com esse raciocínio e considerando “P” a estimativa populacional mensal, temos que P é igual a 60,0% de 36.955 usuários de elevadores no mês de janeiro/2026 (vide tabela apresentada na parte 2 deste artigo). O que dá 61.561 habitantes mensais ou o equivalente diário de 3.420 pessoas, obtidos através do valor mensal dividido por 18 dias úteis. De mesmo modo, o mês de junho/2025 será o extremo máximo correspondente a 20,0% acima do valor médio populacional. Isto é, 120,0% sobre P que corresponderá ao dado de 59.135 habitantes (vide tabela na parte 2), daí se obtendo a estimativa populacional diária da ordem de 3.285 pessoas.
Como suavizar a erraticidade e a sazonalidade, para revelar a secularidade dos dados?
Uma vez tendo sido compreendida a característica cíclica, estacional ou sazonal da série histórica, voltemos ao movimento errático que apresentamos no item 2 da parte 2 deste artigo. Nosso propósito, agora, é tentar suavizar a erraticidade e a sazonalidade, de tal forma que se poderá alcançar a secularidade do fenômeno.
A secularidade consiste da investigação estatística que busca compreender o fenômeno de maneira sistêmica e abrangente, investigando o comportamento evolutivo do fenômeno através de sua base de dados que são fixados na linha do tempo. Desse modo e mediante uma metodologia de trabalho, será possível interpretar seu desempenho geral, se seus dados apresentam tendência de declínio ou de ascensão, ou se na verdade exibem estabilidade sem interferências significativas que provoquem mudança do seu equilíbrio natural.
O meio mais simples de suavizar os movimentos erráticos e sazonais da série de dados é dividir os registros mensais de usuários de elevadores pelo Índice de Variação Estacional (IVE). Desse modo, obteremos valores corrigidos ou minimamente libertos das variações erráticas e sazonais. A seguir, apresentamos a sua estrutura tabular.

Encontrando a tendência da série numérica
Uma vez tendo sido corrigidos os valores da série histórica, será possível aplicar o método estatístico denominado “Mínimos Quadrados”, segundo o qual é possível estabelecer uma equação de linha de tendência a mais próxima possível dos dados observados. Para o caso em tela, verificamos que tais dados retratam uma curva de tendência decrescente, cuja equação é dada por

Esta equação de tendência foi encontrada a partir das observações diárias da população do Edifício Lúcio Costa, isto é, considerando todos os registros que vão do dia 01/09/2023 a 22/02/2026. Seu Índice de Determinação Estatística é superior a 70,0%, demonstrando que se trata de um modelo de previsão com ótima aderência à série de registros diários de pessoas que viajam nos elevadores da zona alta do Edifício Lúcio Costa. A seguir, ilustramos a série histórica acima citada, juntamente com a curva de tendência decrescente. Vejamos:

Se considerarmos os dados diários, teremos 204 ocorrências que estão distribuídas nos meses de set/2023 a fev/2026. Assim, se considerarmos o valor de x=204, já que aponta para a última ocorrência diária do mês de fev/2026, teremos y=1/ (0,000000106*204+0,000355301) = 2.653 pessoas que transitam pelo andar térreo em busca de transporte vertical para alcançar variados pavimentos da edificação.
Por outro lado, a primeira ocorrência refere-se a x=1, daí encontrando-se a estimativa para o primeiro dia de observação do mês de set/2023. Vejamos: y=1/ (0,000000106*1+0,000355301)= 2.814 pessoas. De fato, a equação de tendência apresenta um comportamento de declínio da população do edifício, já que a primeira estimativa diária, referente ao mês de setembro/2023, é superior em mais de 150 pessoas, em relação à última observação diária dentro do mês de fevereiro/2026.
Conclusão final
Diante do estudo cuidadoso de tendência de ocupação da edificação, conseguimos chegar a constatações irrefutáveis quanto ao seu comportamento demográfico.
1. A norma técnica brasileira NBR-5665 não deixa margem à dúvida. A ocupação interna do edifício não deveria passar de 2.328 pessoas, dadas as suas características de funcionamento como sendo um conglomerado de escritórios de finalidade única e sua relação com a área útil disponível.
2. Contudo, as diferentes abordagens estatísticas aqui apresentadas não resultaram em nenhum dado populacional que fosse inferior ao valor teórico preconizado pelo Órgão Técnico Nacional. Daí, a percepção clara de que o padrão de ocupação do edifício, isto é, o perfil normal de demografia interna, é flagrantemente superior ao que a literatura técnica estabelece como extremo populacional.
3. Chegando-se, pois, à convicção de que se convive em ambiente cuja normalidade confunde-se com possíveis situações de crise, há que se tomar providências, com vistas a mitigar riscos de ocorrências de eventos nefastos, sobretudo com respeito à aglomeração de pessoas em movimentação intra corpore.
4. Acautelando-se, portanto, a Gestão de Mobilidade Vertical deve elaborar o seguinte plano de ações, que podem ser tomadas de modo simultâneo ou sequencial ou alternadamente:
- Uso racional dos elevadores: realização de uma campanha de divulgação “Sobe um, desce dois!”, a fim de convencer as pessoas a se utilizarem das escadas entre pavimentos vizinhos. Mas, não sejamos ingênuos! Somente a campanha não dará certo e correrá o risco de letras mortas. Neste caso, deve-se também contar com a empresa conservadora e mantenedora dos elevadores, para que o conjunto de equipamentos seja programado para não aceitar corridas entre partidas e chegadas tão curtas.
- Constatando-se que o andar térreo costuma estar sempre saturado de pessoas e se os grupos de elevadores dispõem de tecnologia popularmente conhecida por “chamadas antecipadas”, convém atentar para o fato de que as botoeiras eletrônicas devam estar instaladas em local facilmente visível e em razoável distância do hall dos elevadores. Caso estejam próximas demais ou ao lado das caixas de corrida, haverá grande aglomeração com pessoas paradas distraidamente em frente a elas e ainda outras caminhando em diferentes direções, configurando-se uma situação permanente de colisão e obstrução, tudo mergulhado em um verdadeiro caos. Decidindo-se, então, por instalar as botoeiras a certa distância das portas do pavimento térreo, os elevadores deverão estar programados de tal forma que a partida deverá ocorrer em um tempo máximo de cinco segundos depois do último passageiro entrar na cabina. Igualmente, as portas automáticas deverão fechar lentamente, para que não haja infortúnios de choque contra um passageiro que ainda se aventure a entrar na cabina às pressas.
- Tratando-se, ainda, de elevadores com “chamadas antecipadas”, é possível que o usuário ansioso e apressado busque alternativas para conseguir sua viagem com a máxima brevidade, lançando mão do artifício de teclar o número do pavimento para que o sistema de controle de tráfego indique o elevador que ele fará a viagem e, em seguida, repete a operação com o acionamento do botão do cadeirante. Isso fará com que, na maioria das vezes, o usuário chame dois elevadores. O primeiro que chegar será o carro utilizado para a viagem e o segundo “baterá lata”, isto é, fará a mesma viagem, só que vazio. Não há dúvida de que essa conduta não é nada ética, além do fato de que o grupo de elevadores perderá desempenho, posto que um dos equipamentos é chamado para efetuar viagens desnecessárias. A alternativa a este tipo de problema é tornar todo o grupo disponível para usuários prioritários, isto é, o primeiro elevador que chega ao hall do andar térreo deverá ser o que atenderá prioritariamente o passageiro PcD. À primeira vista, parece resultar em queda de eficiência para todo o grupo, já que as regras de acessibilidade são claras e afirmativas quanto à maior lentidão na abertura e fechamento de portas de cabina e maior tempo de embarque e desembarque. Entretanto, pode-se implantar tal solução sem perda de desempenho, condicionando-se a efetivamente implantar de modo concomitante a solução de botoeiras distantes das portas de pavimento, tal como exposto no item anterior. Assim, o tempo de abertura e fechamento de portas e o tempo de partida serão padronizados e suficientes inclusive para usuários prioritários.
- Vale agora reiterar que já demonstramos, com a abordagem estatística, o alto nível de ocupação dos espaços físicos do edifício. Já sabemos que a rotina normal consiste da saturação demográfica nos espaços construídos, por isso temos que criar meios de promover a dispersão social dentro do ambiente corporativo. Nesta condição, tem-se que observar se as caixas de corrida de todos os grupos de elevadores, zona alta e zona baixa, possuem portas de pavimento. Se isso não acontece, convém refletir sobre a possibilidade de construí-las, vez que proporcionará múltiplas opções de acesso a elevadores, seja na zona alta, seja na baixa. Esta alternativa permitirá a consolidação e uniformização dos serviços oferecidos simultaneamente pelos dois grupos, zonas alta e baixa, sobretudo com respeito aos pavimentos comuns às duas zonas. Em vez de contar somente com os elevadores de um dos grupos, o usuário usufruirá de todo o parque de equipamentos, tornando mais rápido o alcance do pavimento pretendido. Nesta hipótese, as botoeiras de “chamadas antecipadas”, instaladas no térreo ou nos pavimentos comuns das duas zonas, acionará o primeiro elevador disponível para viagem, não importando se sua origem está no grupo da zona alta ou no da zona baixa.
Considerações finais
Há ainda outras alternativas que merecem ser observadas e bem estudadas, por exemplo, tecnologias de alimentação energética permanente e de qualidade para os equipamentos, de modo a se evitar paradas inesperadas com pessoas presas em cabinas, por ocorrência de fortes oscilações de entrega de eletricidade do edifício para os elevadores.
Todas as soluções tecnológicas devem ser buscadas, mormente para proporcionar à população residente e flutuante de um grande edifício corporativo, os requisitos fundamentais de ergonomia, segurança e confiabilidade no uso dos recursos do ambiente construído, entre os quais, os aparelhos de transporte vertical.
Marco Calixto Gonzaga
Marco Calixto Gonzaga é Máster Técnico em Equipamentos de Elevação por la Escuela de Postigrado Industrial de Lérida, Espanha. Especialista em Engenharia de Manutenção pela Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É Analista de Sistemas e Químico Tecnológico (CRQ-RJ 3251371) e atualmente é Gestor de Mobilidade Vertical da Subdiretoria-Geral de Engenharia e Arquitetura da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. E-mail: [email protected]