
Prezado Leitor: devido à complexidade do tema e à limitações de espaço disponível para redação, o conteúdo deste artigo seguirá sequencialmente ao longo de sucessivas edições da revista Elevador Brasil.
Este artigo foi iniciado na edição anterior, de número 194, porém teceremos abaixo um breve resumo do tema tratado anteriormente, de modo que, não prejudique o entendimento do conteúdo em continuação. Na edição 194, defendemos a necessidade de entender a dinâmica populacional de um edifício, com o objetivo de buscar um modelo de avaliação quanto ao dimensionamento dos elevadores, sua capacidade de carga, velocidades e outros parâmetros necessários para avaliar a eficiência dos serviços relacionados ao transporte vertical.
O principal pressuposto desta análise é considerar que o edifício já foi construído e se encontra em pleno funcionamento. Assim, o que se deseja é entender se a capacidade instalada dos aparelhos de transporte vertical atende satisfatoriamente a uma realidade de ocupação dos seus pavimentos.
Portanto, a hipótese inicial não é uma edificação que se encontra nas fases de projeto ou mesmo de construção, em que se pode conjecturar sobre as possibilidades de uso futuro, especialmente no que tange ao número de equipamentos de elevação, se deverão funcionar de forma integrada com elevadores e escadas rolantes, ou quais serão seus respectivos parâmetros de projeto.
O edifício já existe e convive com problemas relacionados à correlação entre dinâmica populacional e tráfego vertical. Dito isto, passemos à síntese do que foi tratado na edição anterior:
1. No Edifício Lúcio Costa, sede administrativa e legislativa do Parlamento Fluminense, há uma aparente saturação dos serviços dos elevadores;
2. Sua área total construída é de cerca de 21.000,00m²;
3. Considerando a norma reguladora NBR-5665, espera-se que a edificação seja ocupada por, no máximo, 3.000 habitantes/dia, dadas as suas características de funcionamento corporativo de finalidade única.
Ocorre, entretanto, que a NBR-5665 adota o modelo quantitativo com base nas áreas úteis. Em assim sendo, deve-se observar a estrutura tabular seguinte, vez que retrata fielmente o que a norma técnica preconiza.
Assim, observa-se que a aplicação rigorosa da NBR-5665 resulta nas seguintes características de ocupação do Ed. Lúcio Costa:
- Área útil entre o 9º andar e o 28º andar, excluído o 20º andar: 16.297,31m²;
- População estimada considerando o perfil de entidade única ou de escritórios e consultórios de uso geral: 2.328 habitantes;
- População estimada considerando o perfil de cadeia de lojas, centro comercial ou shopping center: 4.074 habitantes.
Demografia do edifício já ocupado e em pleno funcionamento
A aplicação de modelos de tratamento estatístico que permitam certa uniformização numérica pode auxiliar na construção de um valor populacional que mais se aproxima da realidade atual. Tais modelos podem promover uma considerável suavidade na curva de evolução histórica da população do Edifício Lúcio Costa. Para o presente estudo, optou-se pelo modelo de cálculo dos mínimos quadrados, além de ferramentas que proporcionem melhor conformação numérica. Todo esse esforço de tratamento matemático dos dados tem por finalidade a separação das seguintes componentes estatísticas:
- os eventos esporádicos
- os eventos erráticos
- os eventos sazonais
- os eventos seculares
- a tendência
1. Os eventos esporádicos dos dados populacionais
Os dados observados na sala de controle predial da Subdiretoria Geral de Engenharia e Arquitetura – DGEA (sala 2908) e que estão logo abaixo representados em forma tabular, são muito esclarecedores quanto à evolução histórica da dinâmica populacional no interior do Edifício Lúcio Costa. Através desta série de dados, buscar-se-á uma análise estatística que permita a compreensão do comportamento populacional a partir do mês de setembro/2023 até os dias atuais. Vale, ainda, observar que esta série histórica exclui registros com quantitativos inferiores a 1.000 pessoas. O motivo de tal exclusão funda-se no fato de se tratar de eventos esporádicos que não retratam o comportamento geral do conjunto de dados.
Verificou-se que esse esvaziamento populacional guarda estreita relação com a proximidade de feriados prolongados ou com dias úteis em que não há sessões plenárias, nem há frequência de alunos na Escola do Legislativo, tampouco ocupações de salas de audiência e auditórios. Assim, o quantitativo inferior a 1.000 indivíduos, uma vez correspondendo a um baixo trânsito de pessoas no interior do Edifício Lúcio Costa, deve ser considerado um fenômeno infrequente ou fortuito e, por conseguinte, excluído da série histórica, de modo a não contaminar a curva de evolução demográfica da edificação.
Uma vez realizadas estas exclusões, a série histórica ganha suavidade, malgrado ainda permanecerem os picos de erraticidade e as oscilações sazonais. De qualquer modo, a concentração dos dados disposta na linha do tempo já evidencia uma tendência de queda na demografia do edifício. Os dados do primeiro semestre de 2024 mostram uma significativa incidência acima de 4.000 entradas de usuários em elevadores.
Já no segundo semestre do mesmo ano, as entradas diárias mantiveram-se dentro do intervalo entre 2.000 e 4.000. Ao longo do ano de 2025, por sua vez, evidenciou-se uma forte tendência à queda do número de usuários de elevadores, vez que há maior número de dias em que houve populações abaixo de 2.000 indivíduos, nada obstante ainda persistir grande volume de dados dentro do intervalo ente 2.000 e 4.000 indivíduos.
2. Os eventos erráticos
Uma vez sendo compreendidos plenamente os eventos esporádicos e tendo sido expurgados em virtude da baixa densidade populacional (isto é, com ocupação inferior a 1.000 usuários de elevador), lançamo-nos agora no estudo dos eventos erráticos. Nos estudos de modelos não determinísticos de Pesquisa Operacional, os movimentos erráticos são resultantes de eventos aleatórios impossíveis de serem evitados, o que explica a existência de intervalos numéricos em que se situam as ocorrências.
Nesse contexto, é muito fácil perceber que a entrada de pessoas em um edifício em determinado dia da semana acontece sem qualquer previsibilidade. No Edifício Lúcio Costa não é diferente. Daí a dificuldade de se calcular com precisão o número exato de ocupantes do prédio em um dia útil qualquer. Portanto, levando-se em conta a erraticidade das ocorrências, tudo que se pode obter dos registros de entrada de pessoas no edifício é um intervalo de maior incidência e consistência dos dados.
Assim, com relação ao modo de ocupação demográfica, pode-se constatar com absoluta clareza que o intervalo entre 2.000 e 4.000 usuários de elevadores é o principal fator que, atualmente, explica a densidade populacional do Edifício Lúcio Costa, no respeitante à entrada de pessoas no andar térreo para alcançar os elevadores G, H, I, J, K e L.
Dentro deste intervalo, a distribuição numérica da série histórica mostra-se significativamente instável. Por isso, persiste a necessidade de se efetuar o abrandamento dos movimentos de extrema oscilação aleatória ou de elevado grau de erraticidade. Para tanto, devemos também tentar entender a sazonalidade que causa impacto nas ocorrências. Após compreender os ciclos estacionais que interferem na série histórica, voltaremos ao estudo dos movimentos erráticos.
3. Os eventos cíclicos
Talvez seja possível atenuar os movimentos erráticos ou aleatórios se os dados diários fossem tratados segundo a apuração de suas médias móveis quinzenais. As quinzenas aqui adotadas foram construídas de modo que reflita o comportamento natural de ocupação do prédio. A seguir, explicamos.
Historicamente, as sessões legislativas funcionam em ciclos muito bem caracterizados em virtude da conjuntura política e das forças de situação e de oposição que refletem na dinâmica interna dos parlamentos brasileiros. Contudo, se nenhum fato superveniente acontecer, tais sessões legislativas iniciam na segunda quinzena do mês de fevereiro de cada ano e terminam ao final da primeira quinzena do mês de dezembro, havendo um intervalo de suspensão das atividades durante as duas quinzenas do mês de julho.
Assim, não é difícil entender que ao longo de sessões legislativas anuais (isto é, entre a segunda quinzena de fevereiro e primeira quinzena de dezembro, ter-se-á maior contingente populacional no interior da edificação, ao passo que durante os recessos parlamentares (isto é, entre a segunda quinzena de dezembro até a primeira quinzena de fevereiro e entre as duas quinzenas do mês de julho) haverá uma substancial redução na circulação de pessoas.
3.1 Como extraímos os eventos cíclicos da série histórica?
Primeiro, vamos aglutinar os dados diários de ocupação do edifício em períodos mensais, de modo a converter a série diária em série mensal. Segundo: vamos agora aglutinar amostras que contenham doze meses sequenciais, a partir do primeiro mês de observação, isto é, setembro/2023. Terceiro: vamos somar os dados mensais de cada uma das essas amostras. Os totais encontrados são denominados “Totais Móveis”, porque são consolidados na planilha eletrônica de modo que fiquem no centro de cada amostra, que neste caso vamos posicioná-lo alinhado ao sexto mês. E, finalmente, calculamos os porcentuais de cada mês sobre os totais móveis. Vejamos como ficou a planilha logo a seguir:

Feito isso, construímos um rol dos valores porcentuais obtidos na tabela anterior. Como há mais de um valor para cada mês, de janeiro a dezembro, usaremos as médias aritméticas dos valores porcentuais. A média geral de todas as médias encontradas servirá para calcular as porcentagens correspondentes a cada mês. Estas porcentagens representarão os índices de variação estacional (ou cíclica). Abaixo segue resumidamente a forma tabular dos Índices de Variação Estacional relativos à ocupação do Edifício Lúcio Costa.

Estes índices mostram que o número de usuários de elevadores da zona alta do Edifício Lúcio Costa tende a alcançar o máximo nos meses de maio, junho agosto e outubro e o mínimo, em janeiro e julho. Indicam-nos, além disso, que no auge da alta, a dinâmica populacional se coloca cerca de 20,0% acima da média mensal e que na baixa, desce a quase quarenta por cento.
[Querido leitor, o conteúdo seguirá na edição 196 da revista Elevador Brasil. Grande abraço!]






