Joseph Armas e os 120 anos da Otis no Brasil
Em entrevista exclusiva no Rio de Janeiro, o presidente da Otis nas Américas fala de modernização, falta de técnicos, novos produtos e dos próximos dez anos da empresa no país
Em entrevista exclusiva no Rio de Janeiro, o presidente da Otis nas Américas fala de modernização, falta de técnicos, novos produtos e dos próximos dez anos da empresa no país
Em 1906, a Otis vendeu seu primeiro elevador no Brasil. Ele está no Palácio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, hoje residência oficial do governador do estado, e funciona até hoje, com a cabina original.
Em outubro, 120 anos depois, Joseph Armas, presidente da Otis nas Américas, veio ao Rio na sua segunda visita ao Brasil, conheceu o palácio e conversou com a Revista Elevador Brasil sobre o que a empresa quer fazer no país daqui para a frente: modernizar o parque instalado e formar técnicos diante da escassez de mão de obra. Da conversa participaram também Matt Cushing, vice-presidente e diretor-geral da Otis na América Latina, e Álvaro Netto, diretor-geral da Otis Brasil.
Cento e vinte anos é muito tempo para qualquer empresa. O que esse marco representa para a Otis?
É um grande marco. Esta é a minha segunda vez no Brasil, e o primeiro elevador que a Otis vendeu no país, o do Palácio das Laranjeiras, continua sob a nossa manutenção: nós o modernizamos, mas mantivemos a cabina original e a experiência de quem o usa. E a história continua no Cristo Redentor, onde instalamos elevadores Gen2.
Desde janeiro, o senhor responde também pela América Latina, depois de dirigir a Otis na América do Norte e na Ásia. O que o Brasil tem em comum com esses mercados, e como o senhor vê os próximos dez anos da Otis aqui?
O Brasil tem muito em comum com a Ásia e com a América do Norte, a começar pelo foco em habitação e pela escala dos projetos. Para os próximos dez anos, a modernização é o nosso foco principal, e o foco está nas pessoas, nos usuários finais. Para chegar lá, precisamos desenvolver mais produtos que atendam às necessidades deste mercado, aproveitar as oportunidades e estar prontos para reagir.

Modernizar o quê, exatamente? O parque brasileiro está envelhecendo, e a população também: pessoas com 65 anos ou mais já são 11,6% do total, segundo o IBGE. Lá fora, a Otis lançou o Arise MOD para elevadores, o Link MOD para escadas rolantes e o Otis Viva, pensado para o passageiro idoso. Isso chega ao Brasil?
Estamos lançando projetos muito interessantes, e a Otis decide mercado a mercado. Aqui, as escadas rolantes vieram primeiro: isso já começou.
E o elevador conectado? O Otis ONE já está disponível no Brasil?
Está disponível como piloto no Brasil, e estamos muito animados com isso. No mundo, são 1,1 milhão de equipamentos conectados.

Do lado do equipamento novo, a Otis lançou em abril a linha Robust, voltada a data centers e outras instalações críticas. Esse mercado existe no Brasil?
Existe, e a demanda está crescendo. A Robust é uma linha de elevadores industriais: nasceu para os data centers, mas atende também a indústria pesada, a logística e a manufatura. Vemos uma oportunidade aqui.

Boa parte do que a Otis vende no Brasil sai de São Bernardo do Campo. Qual é o papel da fábrica hoje, e as mudanças nas tarifas de importação chegam a afetar a operação brasileira?
A fábrica tem um papel central na América Latina. Passou por uma ampliação recente e hoje produz mais de 20 elevadores por dia. É isso que nos protege das tarifas: São Bernardo fornece 95% dos elevadores que vendemos no Brasil, então elas não nos atingem aqui.
E a concorrência dos fabricantes chineses, com preços mais baixos?
Respondemos com três coisas: o nível do nosso serviço, a nossa fábrica e uma instalação que não causa transtorno ao cliente.
Ainda sobre fábricas: qual é o peso da sustentabilidade na estratégia da Otis?
É uma prioridade para a empresa, e começa dentro de casa: nossa fábrica de Florence, na Carolina do Sul, já funciona totalmente com energia solar. No produto, o drive regenerativo ReGen ajuda a reduzir o consumo de energia, e hoje ele vem de série em todos os elevadores Otis; não é mais um opcional. E prestamos contas disso: publicamos um relatório de sustentabilidade com o nosso progresso e trabalhamos também a eficiência da nossa frota.
O ReGen é o acionamento regenerativo da Otis: devolve à rede elétrica do prédio a energia gerada na frenagem do elevador, que pode mover outros elevadores ou alimentar outros equipamentos. Com o modo de espera, reduz o consumo de eletricidade e a conta de luz do edifício.
Muitos leitores da Revista são fabricantes de componentes. Como um fabricante brasileiro pode se tornar fornecedor da Otis?
Estamos sempre abertos a novos fornecedores de peças; quanto mais fornecedores, melhor. E o caminho é o mesmo em qualquer país: o processo de aprovação é global.

Outra parte grande dos nossos leitores são as conservadoras independentes, mais de 1.500 no Brasil. Nos Estados Unidos, a UNITEC vende peças originais Otis a essas empresas há mais de 30 anos. A Otis pensa em algo parecido aqui?
A empresa está sempre analisando como pode suprir o mercado global com peças. No Brasil, queremos ser capazes de apoiar as conservadoras independentes.
Nos Estados Unidos, a Otis também compra carteiras de manutenção dessas empresas. Isso pode acontecer no Brasil?
Pode. Se enxergarmos valor, fazemos aquisições.
Para crescer em serviço, é preciso gente. Segundo a Otis, 80% dos participantes da última turma do Rota Escola foram contratados como técnicos. O que falta para formar técnicos na escala de que o mercado precisa?
Precisamos de mais técnicos; isso é fundamental para crescer neste setor. O número de unidades novas está crescendo, o mercado de técnicos é muito fechado e precisamos desesperadamente deles. Encontrar técnico é difícil, e o Rota Escola ajuda a suprir essa falta, formando desde o começo com foco em segurança e qualidade. E quem entra tem carreira pela frente: temos mecânicos que chegaram a executivos.
O senhor falou em segurança desde o começo. Como a Otis cuida da segurança desses técnicos em campo?
A segurança é inegociável, desde a fundação da empresa, e tenho muito orgulho do nosso programa. Ele é bastante regrado: manual de segurança, EPI, conversas semanais, revisão das tarefas e garantia de qualidade antes de liberar o equipamento. Damos atenção especial ao que pode matar (Stuff that can kill you), porque são os maiores riscos. O objetivo é simples: cada técnico volta para casa, e ninguém trabalha sob pressão. Por isso qualquer pessoa tem autoridade para parar o trabalho se vir algo inseguro.
As normas também mudam de país para país. A ISO 8100-1/2 propõe uma norma mundial para elevadores. Como a Otis vê essa unificação?
É desafiador, mas a intenção é a certa. Hoje seguimos padrões mundiais de segurança e adaptamos o projeto à regulamentação de cada país; é um trabalho global, e a Otis tem uma equipe dedicada só às normas. A dificuldade é que cada país se concentra nas próprias regras, e as diferenças são grandes: da ASME americana às normas locais, do sistema imperial nos Estados Unidos ao métrico no resto do mundo. É isso que torna uma norma única um desafio.
Para terminar, uma pergunta pessoal. O senhor é engenheiro aeronáutico e astronáutico pela Universidade de Washington, foi oficial do Exército dos EUA e entrou na Otis, então parte da United Technologies, pensando em ficar pouco tempo antes de seguir para a Pratt & Whitney. Começou como supervisor e hoje preside a empresa nas Américas. O que o Exército ensinou que o senhor usa até hoje?
Saí da faculdade direto para o Exército, e recebi responsabilidade logo de cara. Foi ali que aprendi a cuidar da equipe e a apoiar as pessoas. Quando virei supervisor de técnicos, percebi que era muito parecido com liderar soldados: você precisa entender o que eles fazem, encontrar formas de apoiá-los e dar a eles os recursos de que precisam.
Por Daniel Almeida, Revista Elevador Brasil
Vinte anos de Otis, dos Estados Unidos à Ásia
Joseph Armas foi nomeado presidente da Otis nas Américas em 2025 e assumiu o cargo em janeiro de 2026. Em mais de vinte anos de Otis, ocupou cargos de liderança nos Estados Unidos e na Ásia e participou de projetos que levaram novas tecnologias ao setor, vários deles em edifícios icônicos. Em 2022, presidiu a Câmara Americana de Comércio em Hong Kong. Antes da Otis, foi oficial do Exército dos Estados Unidos por seis anos. É engenheiro aeronáutico e astronáutico pela Universidade de Washington, com MBA pela Universidade Purdue e mestrado em administração pública pela Golden Gate University.
Da Delta Air Lines à Otis

Matt Cushing, vice-presidente e diretor-geral da Otis na América Latina, responde por Brasil, Colômbia, Argentina, Chile, Uruguai, México e América Central. Mora em São Paulo. Na conversa com a Revista Elevador Brasil, resumiu a região: cada país tem suas particularidades políticas, econômicas, de normas e de sensibilidade a preço, mas o cliente quer sempre a mesma coisa, confiabilidade.
Chegou à Otis em 2019, como diretor global de imóveis corporativos, depois de mais de dez anos na Delta Air Lines, onde cuidou de grandes obras e do desenvolvimento de aeroportos, e de uma passagem pela área financeira da General Electric. Antes de assumir a região, foi chefe de gabinete da presidente e CEO da Otis, Judy Marks. É formado em administração pelo Boston College e tem MBA em finanças pela Wharton School.
De trainee a diretor-geral

Álvaro Netto entrou na Otis como trainee, em 1990, e construiu toda a carreira na empresa: passou pela engenharia de campo, por filiais e pela direção regional e, desde 2016, lidera a Otis no Brasil. Foi ele quem projetou as escadas rolantes do Cristo Redentor.
Em julho, a Otis concluiu a modernização dos elevadores do monumento e começou a instalar escadas rolantes e elevadores inclinados para facilitar o acesso dos visitantes. Segundo Álvaro, o projeto reflete o foco da Otis em acessibilidade: facilitar o transporte de pessoas idosas e de pessoas com pouca capacidade de locomoção.
Os produtos citados na entrevista
Otis Link. Linha de escadas rolantes comerciais da Otis. Em maio de 2026, a empresa lançou o Link MOD, pacote de modernização para escadas rolantes já instaladas, em três níveis (Prime, Plus e Pro), que mantém a estrutura existente e usa módulos pré-montados na fábrica para encurtar a obra; a quarta opção é a troca completa por uma escada Otis Link nova. Segundo a Otis, uma em cada cinco escadas rolantes do mundo já está na janela de modernização.
Otis ReGen. Acionamento regenerativo que devolve à rede elétrica do prédio a energia gerada na frenagem do elevador, para uso por outros elevadores ou equipamentos. Com o modo de espera, reduz o consumo líquido de eletricidade e a conta de luz. Vem de série nos elevadores Gen2, Gen3, Gen360 e SkyRise e nas escadas Otis Link. A Otis fala em até 75% menos energia que um elevador convencional sem regeneração.
Otis Robust. Linha de elevadores de carga pesada lançada em abril de 2026 para data centers e outras instalações críticas, como hospitais, centros logísticos e indústria. Segundo a Otis, suporta até cinco vezes a carga e tem portas com o dobro da largura de um elevador de passageiros comum, e pode ser monitorada pela plataforma Otis ONE.
Matéria da Revista Elevador Brasil, Edição 197
Leia também