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Negócios

Joseph Armas e os 120 anos da Otis no Brasil

Em entrevista exclusiva no Rio de Janeiro, o presidente da Otis nas Américas fala de modernização, falta de técnicos, novos produtos e dos próximos dez anos da empresa no país

Joseph Armas e os 120 anos da Otis no Brasil
Joseph Armas, presidente da Otis nas Américas desde janeiro de 2026 — Foto: Otis/Divulgação

Em entrevista exclusiva no Rio de Janeiro, o presidente da Otis nas Américas fala de modernização, falta de técnicos, novos produtos e dos próximos dez anos da empresa no país

Em 1906, a Otis vendeu seu primeiro elevador no Brasil. Ele está no Palácio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, hoje residência oficial do governador do estado, e funciona até hoje, com a cabina original.

Em outubro, 120 anos depois, Joseph Armas, presidente da Otis nas Américas, veio ao Rio na sua segunda visita ao Brasil, conheceu o palácio e conversou com a Revista Elevador Brasil sobre o que a empresa quer fazer no país daqui para a frente: modernizar o parque instalado e formar técnicos diante da escassez de mão de obra. Da conversa participaram também Matt Cushing, vice-presidente e diretor-geral da Otis na América Latina, e Álvaro Netto, diretor-geral da Otis Brasil.

Cento e vinte anos é muito tempo para qualquer empresa. O que esse marco representa para a Otis?

É um grande marco. Esta é a minha segunda vez no Brasil, e o primeiro elevador que a Otis vendeu no país, o do Palácio das Laranjeiras, continua sob a nossa manutenção: nós o modernizamos, mas mantivemos a cabina original e a experiência de quem o usa. E a história continua no Cristo Redentor, onde instalamos elevadores Gen2.

Desde janeiro, o senhor responde também pela América Latina, depois de dirigir a Otis na América do Norte e na Ásia. O que o Brasil tem em comum com esses mercados, e como o senhor vê os próximos dez anos da Otis aqui?

O Brasil tem muito em comum com a Ásia e com a América do Norte, a começar pelo foco em habitação e pela escala dos projetos. Para os próximos dez anos, a modernização é o nosso foco principal, e o foco está nas pessoas, nos usuários finais. Para chegar lá, precisamos desenvolver mais produtos que atendam às necessidades deste mercado, aproveitar as oportunidades e estar prontos para reagir.

Cabina do elevador do Palácio das Laranjeiras, com paredes brancas e ornamentos dourados
A cabina original do elevador do Palácio das Laranjeiras, o primeiro vendido pela Otis no Brasil, em 1906 — Foto: Otis/Divulgação

Modernizar o quê, exatamente? O parque brasileiro está envelhecendo, e a população também: pessoas com 65 anos ou mais já são 11,6% do total, segundo o IBGE. Lá fora, a Otis lançou o Arise MOD para elevadores, o Link MOD para escadas rolantes e o Otis Viva, pensado para o passageiro idoso. Isso chega ao Brasil?

Estamos lançando projetos muito interessantes, e a Otis decide mercado a mercado. Aqui, as escadas rolantes vieram primeiro: isso já começou.

E o elevador conectado? O Otis ONE já está disponível no Brasil?

Está disponível como piloto no Brasil, e estamos muito animados com isso. No mundo, são 1,1 milhão de equipamentos conectados.

Interior de uma cabina de elevador Otis Gen2, em aço escovado, com botoeira iluminada
Cabina de um elevador Gen2, a plataforma que sai da fábrica de São Bernardo do Campo e equipa o Cristo Redentor — Foto: Otis/Divulgação

Do lado do equipamento novo, a Otis lançou em abril a linha Robust, voltada a data centers e outras instalações críticas. Esse mercado existe no Brasil?

Existe, e a demanda está crescendo. A Robust é uma linha de elevadores industriais: nasceu para os data centers, mas atende também a indústria pesada, a logística e a manufatura. Vemos uma oportunidade aqui.

Prédio branco da fábrica da Otis em São Bernardo do Campo, com torre de testes e o logotipo Otis
A fábrica da Otis em São Bernardo do Campo (SP), que fornece 95% dos elevadores vendidos pela empresa no Brasil — Foto: Otis/Divulgação

Boa parte do que a Otis vende no Brasil sai de São Bernardo do Campo. Qual é o papel da fábrica hoje, e as mudanças nas tarifas de importação chegam a afetar a operação brasileira?

A fábrica tem um papel central na América Latina. Passou por uma ampliação recente e hoje produz mais de 20 elevadores por dia. É isso que nos protege das tarifas: São Bernardo fornece 95% dos elevadores que vendemos no Brasil, então elas não nos atingem aqui.

E a concorrência dos fabricantes chineses, com preços mais baixos?

Respondemos com três coisas: o nível do nosso serviço, a nossa fábrica e uma instalação que não causa transtorno ao cliente.

Ainda sobre fábricas: qual é o peso da sustentabilidade na estratégia da Otis?

É uma prioridade para a empresa, e começa dentro de casa: nossa fábrica de Florence, na Carolina do Sul, já funciona totalmente com energia solar. No produto, o drive regenerativo ReGen ajuda a reduzir o consumo de energia, e hoje ele vem de série em todos os elevadores Otis; não é mais um opcional. E prestamos contas disso: publicamos um relatório de sustentabilidade com o nosso progresso e trabalhamos também a eficiência da nossa frota.

O ReGen é o acionamento regenerativo da Otis: devolve à rede elétrica do prédio a energia gerada na frenagem do elevador, que pode mover outros elevadores ou alimentar outros equipamentos. Com o modo de espera, reduz o consumo de eletricidade e a conta de luz do edifício.

Muitos leitores da Revista são fabricantes de componentes. Como um fabricante brasileiro pode se tornar fornecedor da Otis?

Estamos sempre abertos a novos fornecedores de peças; quanto mais fornecedores, melhor. E o caminho é o mesmo em qualquer país: o processo de aprovação é global.

Cinco homens de pé, lado a lado, em um salão com carpete estampado
No Rio, em 21 de outubro: Joseph Armas, Edilberto Almeida, Álvaro Netto, Daniel Almeida e Matt Cushing — Foto: Otis/Divulgação

Outra parte grande dos nossos leitores são as conservadoras independentes, mais de 1.500 no Brasil. Nos Estados Unidos, a UNITEC vende peças originais Otis a essas empresas há mais de 30 anos. A Otis pensa em algo parecido aqui?

A empresa está sempre analisando como pode suprir o mercado global com peças. No Brasil, queremos ser capazes de apoiar as conservadoras independentes.

Nos Estados Unidos, a Otis também compra carteiras de manutenção dessas empresas. Isso pode acontecer no Brasil?

Pode. Se enxergarmos valor, fazemos aquisições.

Para crescer em serviço, é preciso gente. Segundo a Otis, 80% dos participantes da última turma do Rota Escola foram contratados como técnicos. O que falta para formar técnicos na escala de que o mercado precisa?

Precisamos de mais técnicos; isso é fundamental para crescer neste setor. O número de unidades novas está crescendo, o mercado de técnicos é muito fechado e precisamos desesperadamente deles. Encontrar técnico é difícil, e o Rota Escola ajuda a suprir essa falta, formando desde o começo com foco em segurança e qualidade. E quem entra tem carreira pela frente: temos mecânicos que chegaram a executivos.

O senhor falou em segurança desde o começo. Como a Otis cuida da segurança desses técnicos em campo?

A segurança é inegociável, desde a fundação da empresa, e tenho muito orgulho do nosso programa. Ele é bastante regrado: manual de segurança, EPI, conversas semanais, revisão das tarefas e garantia de qualidade antes de liberar o equipamento. Damos atenção especial ao que pode matar (Stuff that can kill you), porque são os maiores riscos. O objetivo é simples: cada técnico volta para casa, e ninguém trabalha sob pressão. Por isso qualquer pessoa tem autoridade para parar o trabalho se vir algo inseguro.

As normas também mudam de país para país. A ISO 8100-1/2 propõe uma norma mundial para elevadores. Como a Otis vê essa unificação?

É desafiador, mas a intenção é a certa. Hoje seguimos padrões mundiais de segurança e adaptamos o projeto à regulamentação de cada país; é um trabalho global, e a Otis tem uma equipe dedicada só às normas. A dificuldade é que cada país se concentra nas próprias regras, e as diferenças são grandes: da ASME americana às normas locais, do sistema imperial nos Estados Unidos ao métrico no resto do mundo. É isso que torna uma norma única um desafio.

Para terminar, uma pergunta pessoal. O senhor é engenheiro aeronáutico e astronáutico pela Universidade de Washington, foi oficial do Exército dos EUA e entrou na Otis, então parte da United Technologies, pensando em ficar pouco tempo antes de seguir para a Pratt & Whitney. Começou como supervisor e hoje preside a empresa nas Américas. O que o Exército ensinou que o senhor usa até hoje?

Saí da faculdade direto para o Exército, e recebi responsabilidade logo de cara. Foi ali que aprendi a cuidar da equipe e a apoiar as pessoas. Quando virei supervisor de técnicos, percebi que era muito parecido com liderar soldados: você precisa entender o que eles fazem, encontrar formas de apoiá-los e dar a eles os recursos de que precisam.

Por Daniel Almeida, Revista Elevador Brasil

Vinte anos de Otis, dos Estados Unidos à Ásia

Joseph Armas foi nomeado presidente da Otis nas Américas em 2025 e assumiu o cargo em janeiro de 2026. Em mais de vinte anos de Otis, ocupou cargos de liderança nos Estados Unidos e na Ásia e participou de projetos que levaram novas tecnologias ao setor, vários deles em edifícios icônicos. Em 2022, presidiu a Câmara Americana de Comércio em Hong Kong. Antes da Otis, foi oficial do Exército dos Estados Unidos por seis anos. É engenheiro aeronáutico e astronáutico pela Universidade de Washington, com MBA pela Universidade Purdue e mestrado em administração pública pela Golden Gate University.

Da Delta Air Lines à Otis

Matt Cushing, de terno azul e camisa branca, em um saguão com elevadores ao fundo
Matt Cushing, vice-presidente e diretor-geral da Otis na América Latina — Foto: Otis/Divulgação

Matt Cushing, vice-presidente e diretor-geral da Otis na América Latina, responde por Brasil, Colômbia, Argentina, Chile, Uruguai, México e América Central. Mora em São Paulo. Na conversa com a Revista Elevador Brasil, resumiu a região: cada país tem suas particularidades políticas, econômicas, de normas e de sensibilidade a preço, mas o cliente quer sempre a mesma coisa, confiabilidade.

Chegou à Otis em 2019, como diretor global de imóveis corporativos, depois de mais de dez anos na Delta Air Lines, onde cuidou de grandes obras e do desenvolvimento de aeroportos, e de uma passagem pela área financeira da General Electric. Antes de assumir a região, foi chefe de gabinete da presidente e CEO da Otis, Judy Marks. É formado em administração pelo Boston College e tem MBA em finanças pela Wharton School.

De trainee a diretor-geral

Álvaro Netto, de braços cruzados, em um saguão com elevadores ao fundo
Álvaro Netto, diretor-geral da Otis Brasil — Foto: Otis/Divulgação

Álvaro Netto entrou na Otis como trainee, em 1990, e construiu toda a carreira na empresa: passou pela engenharia de campo, por filiais e pela direção regional e, desde 2016, lidera a Otis no Brasil. Foi ele quem projetou as escadas rolantes do Cristo Redentor.

Em julho, a Otis concluiu a modernização dos elevadores do monumento e começou a instalar escadas rolantes e elevadores inclinados para facilitar o acesso dos visitantes. Segundo Álvaro, o projeto reflete o foco da Otis em acessibilidade: facilitar o transporte de pessoas idosas e de pessoas com pouca capacidade de locomoção.

Os produtos citados na entrevista

Otis Link. Linha de escadas rolantes comerciais da Otis. Em maio de 2026, a empresa lançou o Link MOD, pacote de modernização para escadas rolantes já instaladas, em três níveis (Prime, Plus e Pro), que mantém a estrutura existente e usa módulos pré-montados na fábrica para encurtar a obra; a quarta opção é a troca completa por uma escada Otis Link nova. Segundo a Otis, uma em cada cinco escadas rolantes do mundo já está na janela de modernização.

Otis ReGen. Acionamento regenerativo que devolve à rede elétrica do prédio a energia gerada na frenagem do elevador, para uso por outros elevadores ou equipamentos. Com o modo de espera, reduz o consumo líquido de eletricidade e a conta de luz. Vem de série nos elevadores Gen2, Gen3, Gen360 e SkyRise e nas escadas Otis Link. A Otis fala em até 75% menos energia que um elevador convencional sem regeneração.

Otis Robust. Linha de elevadores de carga pesada lançada em abril de 2026 para data centers e outras instalações críticas, como hospitais, centros logísticos e indústria. Segundo a Otis, suporta até cinco vezes a carga e tem portas com o dobro da largura de um elevador de passageiros comum, e pode ser monitorada pela plataforma Otis ONE.

Matéria da Revista Elevador Brasil, Edição 197