Pular para o conteúdo

Empreendedorismo

Do desespero ao topo

Do desespero ao topo

O que o poço do elevador me ensinou sobre nunca mais aceitar a falta de opção

Se alguém me dissesse, há alguns anos, que eu passaria boa parte da minha vida profissional de botina de biqueira de aço, analisando o limite de desgaste de cabos de tração e destrinchando normas técnicas, eu provavelmente daria risada. Eu não planejei trabalhar com elevadores. Eu entrei no setor por susto.

Estava recém-separada, de volta à casa dos meus pais, com um filho pequeno para criar e aquele frio absurdo na barriga de quem precisava prover e recomeçar do zero após um período afastada do mercado por causa da maternidade. Quando a primeira oportunidade apareceu, eu não tive o luxo de escolher: era o transporte vertical. Eu tinha formação técnica, mas minha experiência anterior era puramente administrativa. Ferramental? Manual? Campo? Eu nunca tinha chegado perto.

O início foi um turbilhão. Medo do desconhecido, insegurança física e, claro, aquela clássica desconfiança em um setor predominantemente masculino. Mas eu tinha um motor que rodava mais rápido do que qualquer máquina de tração de alta velocidade: o meu filho. Por ele, engoli sapos, ignorei olhares atravessados de quem duvidava que “aquela moça” daria conta do recado, e decidi que ia fazer dar certo.

Do “Não Sei” ao “Deixa que Eu Faço”

Na contramão dos preconceitos, o campo me apresentou a profissionais fantásticos. Homens “raiz” do setor que, em vez de fecharem a porta, me acolheram, me ensinaram a segurar a ferramenta e dividiram comigo o conhecimento de uma vida inteira de graxa e painéis elétricos. E o que me restava? Sugar cada gota de aprendizado. Estudei, pratiquei, perguntei (muito!), executei e repeti o processo até que o medo virasse rotina.

Passei 6 anos na operação de uma das maiores multinacionais do setor. Entrei como quem precisava urgentemente de um porto seguro e saí de lá treinando novas equipes, liderando processos complexos e, no meio de tudo isso, conquistando o meu diploma de Engenharia.

Mas o principal aprendizado que levei daquela época não está em nenhum manual de fabricante: eu entendi que nunca mais na minha vida eu aceitaria estar em uma posição de desespero por falta de opções.

O Próximo Nível: A Chave de Fenda dá Lugar à Caneta (e à Norma)

Quando percebi que o meu ciclo de crescimento ali tinha chegado ao teto, tomei a decisão de saltar. Sem rede de segurança, mas com uma bagagem que ninguém poderia me tirar.

Foi aí que mudei o jogo. Deixei o manuseio diário das ferramentas e migrei para a consultoria independente de engenharia legal e técnica. Hoje, o meu papel é traduzir a complexidade das normas técnicas, assinar laudos, relatórios de auditoria e garantir a segurança de milhares de passageiros através de um olhar clínico, preventivo e estratégico.

Sair da “caixa preta” técnica e conversar de igual para igual tanto com o técnico que está com a mão suja de graxa na segunda-feira de manhã quanto com o Diretor que precisa decidir o capital de modernização de uma frota inteira é o meu maior diferencial. Eu já estive nos dois lados dessa mesa.

Onde Queremos Chegar?

Se antes eu dependia de uma única oportunidade para sobreviver, hoje sou a arquiteta da minha própria empregabilidade. Posso começar de novo quantas vezes forem necessárias, porque aprendi a não aceitar menos do que a minha própria autonomia.

O transporte vertical nos ensina, antes de tudo, sobre movimento e elevação. Que a nossa trajetória no setor, seja você quem aperta o parafuso ou quem assina o cheque da modernização, seja sempre para o alto, com a segurança técnica como guia e a certeza de que o nosso valor nunca deve estar condicionado à falta de escolha.

O poço nunca foi o fim. Foi só o ponto de partida.

Jaqueline Gomes
Sobre o autor

Jaqueline Gomes

Jaqueline Gomes é Engenheira Mecânica por formação e prática (CREA-SP 5071428469) e soma 6 anos de experiência direta no campo, vivendo a rotina nua e crua da manutenção, inspeção e operação no setor de elevadores. Após anos com a mão na massa em uma multinacional do segmento, hoje atua de forma independente com consultoria, laudos técnicos, perícias e aplicação de normas. Membro ativa da comunidade Elevadoras, grupo voltado ao fortalecimento e protagonismo das mulheres no setor de transporte vertical, sua missão é desmistificar a engenharia de elevadores: conectar a realidade do técnico que está no poço à visão estratégica do diretor na sala de reuniões. Tudo sem complicação técnica e com a autoridade de quem conhece a graxa, o painel e a norma por dentro. Instagram: @engjaquegomes