Mulheres que sobem pelos próprios méritos no setor de elevadores
Existe uma ironia quase poética no fato de que uma das indústrias que mais transporta pessoas verticalmente seja, historicamente, tão resistente a movimentos ascendentes quando o assunto é a presença feminina em seus quadros de liderança. O setor de elevadores no Brasil — e no mundo — carrega uma tradição profundamente masculina, enraizada na engenharia mecânica, na construção civil e em décadas de cultura corporativa que simplesmente não imaginava uma mulher à frente de negociações técnicas, gestão de equipes de campo ou tomada de decisão estratégica.
Não é difícil entender por quê. As grandes empresas do segmento foram fundadas por homens em contextos históricos onde o acesso feminino a carreiras técnicas era praticamente nulo. No Brasil, o cenário se replica: as empresas de manutenção, instalação e comercialização de elevadores surgiram em sua maioria como negócios familiares liderados por engenheiros ou técnicos, e a lógica de sucessão e expansão manteve essa estrutura intacta por gerações. Até hoje, quando se pensa em um diretor comercial, um gerente de operações ou um sócio de uma empresa desse ramo, a imagem que vem à mente — inclusive para muitas mulheres — é a de um homem de meia-idade com pasta na mão em uma reunião de condomínio ou no canteiro de obras acompanhando a montagem de um elevador.
Eu mesma carregava essa imagem.
Quando comecei como freelancer em uma empresa de elevador, a verdade é que não me via ocupando nenhuma posição de liderança naquele universo. Entendia meu papel como periférico por natureza — alguém de fora, contratada para uma tarefa específica, que entregaria o trabalho e seguiria em frente. O setor parecia ter suas próprias regras não escritas, e eu as aceitei sem questionar, não porque alguém me dissesse explicitamente que não havia espaço para mim, mas porque eu mesma não me dei o benefício da dúvida. Havia ali um machismo internalizado que eu precisaria nomear e enfrentar antes de qualquer outra coisa.

E essa é uma conversa que o feminismo corporativo muitas vezes evita: o quanto nós, mulheres, absorvemos estruturas de exclusão e as reproduzimos contra nós mesmas. Não como culpa, mas como fato dado ou a única realidade possível. Como ponto de partida para uma transformação que precisa começar de dentro para ter consistência lá fora.
O processo foi lento e, em retrospecto, revelador. À medida que meu trabalho foi ganhando reconhecimento dentro da empresa, fui sendo convidada a participar de espaços que antes pareciam distantes. E o que descobri é que a resistência que eu imaginava encontrar era, em grande parte, uma projeção do meu próprio ceticismo sobre o meu lugar ali. O setor é conservador — isso é real. Mas o conservadorismo de uma empresa não é imune à competência. Quando o resultado fala, ele fala alto, independentemente do gênero de quem o produziu.
Tornar-me sócia não foi um gesto simbólico ou uma política de diversidade. Foi o reconhecimento de uma entrega consistente, construída ao longo de anos de presença, de erros assumidos, de soluções encontradas e de uma relação de confiança que se consolidou naturalmente. E isso muda a qualidade da conquista: não entrei pela porta lateral. Entrei pela principal, com chave.
O retrato atual do setor ainda está longe do ideal. Segundo dados da Associação Brasileira de Empresas de Elevadores (ABEEL), a participação feminina em cargos de liderança técnica e executiva no segmento segue abaixo da média de outros ramos industriais. As mulheres encontram espaço com mais frequência em áreas de suporte — comunicação, RH, financeiro — do que em operações, engenharia ou na cadeira de sócio. É um padrão que o setor começa a questionar, mas ainda com timidez.
A mudança real exige mais do que intenção. Exige que as empresas revisem seus processos seletivos, que os líderes (homens e mulheres) se perguntem com honestidade quais critérios estão de fato usando para distribuir oportunidades, e que as mulheres que já chegaram ao andar de cima não fechem a porta atrás de si.
Eu cheguei aqui depois de desconstruir o que achava que sabia sobre o meu próprio espaço no mundo. E se há uma coisa que aprendi nessa trajetória é que o setor de elevadores — como qualquer outro — não muda sozinho. Ele muda quando as pessoas dentro dele decidem que a subida vale a pena para todo mundo.






