Reaproveitamento de materiais e o projeto de instalação

Quando já existe um elevador instalado e o cliente quer sua substituição, qual a melhor opção: instalar um elevador totalmente novo ou fazer uma modernização substituindo alguns itens e reaproveitando outros? Esse artigo esclarece alguns pontos que devem ser analisados antes dessa tomada de decisão, pois nem sempre é necessário substituir o equipamento completo. Assim, trabalhamos com as modernizações.

Não é incomum se deparar com situações em que o cliente que possui um elevador instalado há alguns anos solicita que algumas peças do elevador antigo sejam reaproveitadas no elevador novo, principalmente em editais. Podemos entender que se trata sim de uma boa prática, desde que os materiais sejam devidamente analisados para evitar problemas futuros, sendo assim, deixando de ser um benefício.

O reaproveitamento de materiais deve ser feito em conjunto com a engenharia e a equipe de projetos da empresa contratada, além de um engenheiro do cliente, que deverá analisar se a estrutura do prédio existente possui condições da modernização ou se é necessário o reforço da estrutura atual, analisando a situação atual dos materiais e o ajuste no novo equipamento.

Neste cenário, podemos nos deparar com algumas situações:

  • Modernização tecnológica: troca de comando, fiação e botoeiras;
  • Modernização tecnológica e estética: troca de comando, fiação, botoeiras e cabina;
  • Modernização tecnológica e mecânica: nesse caso, se reaproveita tudo o que é possível após a análise; parte elétrica e a máquina também são trocadas.

Normalmente, o elevador novo a ser instalado é da mesma capacidade do elevador antigo – isso para evitar a necessidade de reforçar a estrutura da caixa, o que acaba sendo inviável para o cliente. Esse artigo não tem como objetivo indicar quais cálculos e análises mais complexas devem ser feitas nos materiais e no prédio, e sim mostrar os pontos de atenção e viabilidades para executar as modernizações.

Reaproveitamento dos materiais – Análise

Antes de se iniciar qualquer trabalho de modernização é importante verificar os materiais possíveis de serem reaproveitados. Nesse momento, a engenharia da empresa contratada deve fazer uma vistoria completa no elevador. Quando tratamos de elevadores com 20, 30 anos é normal já descartarmos toda a parte elétrica, sendo o comando, botoeiras e fiações. Isso porque esses materiais estão em constante atualizações, sendo cada vez mais eficientes e econômico. Mas então quais seriam os materiais que podem ser reaproveitados?

Normalmente, os materiais a serem reaproveitados são (não é regra, apenas usual): guias, armação de cabina, armação ou o contrapeso completo. Em algumas situações, a cabina é reaproveitada, sendo necessário apenas revesti-la.

Materiais comuns de serem reaproveitados

Aqui, apresento alguns dos materiais mais comuns de serem reaproveitados – isso por não sofrerem muito esforço e desgaste em sua utilização

Guias: as guias são elementos usados somente para guiar o trajeto da cabina, porém é muito importante analisar se elas estão corretamente instaladas (prumadas), se existe alguma marca de que o freio foi acionado, e possíveis fissuras. Consequentemente, ao reaproveitar as guias, reaproveitamos os suportes, e eles também devem ser analisados, principalmente se estão corretamente fixados nas vigas. As guias e os suportes estando validados para o reaproveitamento, as informações de modelo, nariz, costas são anotadas para que sejam consideradas no projeto do elevador novo. Nesse caso, também é necessário validar junto ao projeto de instalação a quantidade de suportes fixados.

Armação de cabina: principalmente quando as guias são aprovadas para o reaproveitamento, considera-se o reaproveitamento da armação da cabina – isso porque a mesma já está no lugar e devidamente instalada. Porém, é importante observar itens como corrediças, freio de segurança e pontos de apoio para a instalação da nova cabina. Em certas situações, mesmo que a armação esteja apta para o reaproveitamento, é indicado a instalação de uma nova, isso porque o retrabalho para refazer furações e adaptações para o novo elevador é grande, ou seja, é melhor fabricar um novo.

Contrapeso: o contrapeso é outro item que não sofre esforço (isso quando não há freio instalado nele). Sendo assim, depois de uma boa análise e validação, o mesmo pode ser reaproveitado, observando-se as corrediças e anotando os pesos para que seja verificada a necessidade de adicionar ou retirar.

Materiais comuns de serem reaproveitados – Exceções

Máquina: Em algumas situações, a máquina é reaproveitada, porém, essa análise deve ser muito rigorosa. Antigamente, as máquinas eram maiores, mais pesadas, consumindo muita energia elétrica. Nesses casos, é comparar com o cliente o que é mais vantajoso e mais eficiente para o equipamento novo, pois as máquinas atuais são mais leves e consideravelmente mais econômicas do que as antigas, assim também evita que o comando seja mais dimensionado devido a máquina antiga. É comum o cliente não querer trocar a máquina, pois é um item relativamente caro, porém, ao longo prazo, a economia de energia elétrica e conforto no transporte de passageiros acaba compensando o investimento no momento.

Portas: as portas, tanto de cabina quanto de pavimento, são itens que estão em constante movimento, abrindo, fechando, recebendo batidas, ou seja, possuem alguns desgastes durante os anos. Então, considera-se a troca completa. Porém, também não é difícil encontrar situações em que editais solicitem somente a troca das folhas das portas, sendo assim, a análise completa deve ser feita.

Modernização e o projeto de instalação

Os equipamentos antigos demandavam dimensões maiores, por se tratarem de equipamentos mais robustos. Hoje em dia, não se vê essa necessidade, pois a tecnologia e corretos cálculos de desenvolvimento tornaram os equipamentos menores, leves e ainda muito eficientes. A seguir, serão mostrados itens importantes a serem considerados nos novos elevadores indicados no projeto de instalação:

Projeto de instalação

Complemente do piso: é comum observar, em equipamentos antigos, o complemento do piso da cabina ser por volta de 100mm – isso devido ao operador da porta necessitar de mais espaço para instalação no topo da cabina ou simplesmente por questões estéticas. Se haverá a instalação de uma nova cabina, isso deve ser verificado, pois as cabinas novas possuem por volta de 40,50mm de complemento, então ou fabrica uma cabina com o mesmo complemente ou traz a cabina mais para frente. Nesse segundo caso, é necessário fazer o cálculo do centro de massa da cabina.

Portas: as portas tanto de cabina quanto de pavimento são itens que tiveram muitas alterações tecnológicas, inclusive para atender itens normativos, itens como largura da soleira sendo reduzido, batentes mais finos, deixando com uma aparecendo mais clean, não perdendo sua eficiência. O que se deve verificar é do mesmo jeito que o complemento do piso foi reduzido ao longo dos anos, a largura da soleira também foi. Há situações em que a soleira era 100mm, hoje está com 54mm, então é necessário deslocar a cabina para frente ou aumentá-la. Fica como observação que alguns fabricantes de porta possuem kits de modernização, podendo fabricar soleiras sob medida para cada caso, sendo possível manter o posicionamento da cabina.

Cabina: complemento de piso, dobras, largura das soleiras das portas, entre guias da cabina, são itens que devem ser analisados. Em alguns casos, é possível aumentar a cabina, mantendo sua capacidade conforme a norma para suprir a diminuição das soleiras e complemento do piso. E em casos de reaproveitamento da armação, é necessário estudar se a cabina se encaixa na armação existente.

Entre guias da cabina: validado o reaproveitamento das guias, devemos usar como referência de projeto o entre guias da armação da cabina, avaliar se é o mesmo padrão de dimensionamento do atual e se é necessário diminuir ou aumentar a cabina.

Furações piso da casa de máquinas: sendo necessário aumentar/diminuir a cabina, deslocar para frente ou até mesmo trocar o diâmetro da polia da máquina ou de desvio se em tração dupla. É extremamente importante analisar a furação do piso da casa de máquinas (quando tratamos de elevadores com casa de máquinas), isso porque qualquer movimentação pode exigir o reposicionamento dos furos, mas para refazer os furos é necessário uma análise de engenharia junto ao cliente, pois qualquer furação no piso da casa de máquinas pode gerar danos à estrutura existente. Sendo assim, fica como sugestão sempre trabalhar evitando esse tipo de retrabalho.

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Figura 1: Modelo de planta baixa para coleta de dimensões em elevador existente

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Figura 2: Modelo de planta baixa para coleta de dimensões de soleira existente

Normas

Como em todas as situações em que trabalhamos com equipamentos de elevação, trabalhar com modernização não é diferente. Sendo assim, é necessário consultar as normas vigentes, se tratando de melhorias de elevadores existentes, acessibilidade, etc.

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Figura 3: Norma ABNT 16858-7

Considerações finais

Esse artigo tomou como referência a modernização de elevadores elétricos com casa de máquinas, porém, qualquer tipo de elevador pode ser modernizado, inclusive em situações em que o cliente não quer mais a casa de máquinas, tornando a adequação do prédio maior, sendo necessário construção de vigas ou até mesmo refazer a laje dependendo das alturas atuais. Portanto, sempre é necessário tratar as modernizações como algo fora do escopo normal de trabalho, possuir check list e uma equipe de engenharia preparada para as análises, não pensando somente na economia do reaproveitamento, mas sim em um reaproveitamento consciente em que haverá benefícios ao cliente, principalmente ao logo prazo.

Sobre o autor

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Júlio César Santos é Tecnólogo em Gestão da Produção Industrial, Pós-graduado em Engenharia de Produção, Engenharia Civil com Ênfase em Sistemas Construtivos, Engenharia Elétrica com Ênfase em Instalações Industriais e possui MBA Em Gestão de Projetos. Possui 18 anos de experiência no ramo de transporte vertical, tendo experiência em vistorias técnicas, treinamentos técnicos a gerentes de unidades e instaladores e elaboração de projetos. Atualmente, trabalha com projetos de instalação e fabricação para diversas empresas no Brasil, levando conhecimento e auxiliando as empresas a fornecerem projetos e equipamentos dentro dos requisitos normativos.

Instagram @juliocesar_projetista.

 

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