IN MEMORIAM — Uma homenagem a Roberto Saggiomo
A matéria que o leitor encontra nas próximas páginas tem um significado especial. Ela foi escrita por Roberto Antônio Saggiomo Junior, fundador e diretor da Criart Elevadores e colunista desta publicação, que nos deixou recentemente. Este foi o último texto que ele preparou para a Revista Elevador Brasil — e publicá-lo é a nossa forma de honrar quem dedicou mais de três décadas ao transporte vertical, sempre com o conhecimento de quem viveu a operação por dentro.
Roberto transformou sua paixão pelo setor em artigos, em uma empresa de sucesso e, mais recentemente, na escrita de um livro que eternizaria o seu saber. Nestas páginas, ele deixa um rastro de luz — e a certeza de que seu legado de trabalho, integridade e paixão seguirá inspirando toda a comunidade do elevador no Brasil.
A pedido da Revista, sua família escreveu a mensagem que reproduzimos a seguir. A ela, nosso abraço e nossa eterna gratidão por compartilhar Roberto conosco.
Mensagem da família Saggiomo
“Para o mundo, o Roberto Antônio Saggiomo Junior foi um especialista brilhante que dedicou a vida a transportar pessoas com segurança para o alto. Com uma habilidade única e um conhecimento profundo e admirável sobre o setor de elevadores, ele transformou sua paixão em artigos, em uma empresa de sucesso e, mais recentemente, na escrita de um livro que eternizaria o seu saber. Para nós, sua família, ele foi o nosso maior porto seguro, o engenheiro de nossas vidas que sempre nos impulsionava para cima, cheio de um orgulho imenso de cada um de nós. Ele partiu deixando um rastro de luz nestas páginas e um vazio imenso em nossos corações. Seguiremos honrando o seu legado de trabalho, integridade e paixão, sabendo que ele alcançou a sua última e mais alta parada, onde descansa nos braços de Deus. Com eterno amor e profunda saudade de sua mãe, Iracema de Oliveira Saggiomo, e de seus irmãos, Claudia Roberta Saggiomo e Carlos Eduardo Saggiomo.”

O futuro em movimento
A matemática do abismo e a engenharia forense no transporte vertical
A verticalização das metrópoles brasileiras atingiu um patamar de complexidade onde o improviso e o amadorismo tornaram-se riscos inaceitáveis. O transporte vertical contemporâneo deixou de ser um mero detalhe arquitetônico para consolidar-se como o órgão vital da edificação. Neste cenário, a figura do Responsável Técnico emerge não apenas como um supervisor, mas como o verdadeiro guardião biológico e patrimonial da estrutura física de transporte vertical.
A engenharia que rege estes equipamentos opera sob forças colossais de tração, aceleração mecânica e limites termodinâmicos. A norma ABNT NBR 16858 impôs uma régua de precisão absoluta, transformando a segurança em uma ciência exata e forense. Ignorar esta evolução é flertar abertamente com o nexo causal de falhas catastróficas.
A Anatomia da Fadiga e a Ciência dos Materiais
A integridade de um elevador em funcionamento não pode ser atestada apenas pela estética reluzente da sua cabina. Importando os conceitos de resistência de materiais em sistemas de alta pressão (como os postulados pelo engenheiro alemão Kurt Hünerberg), compreende-se que o equipamento sofre de fadiga flexional ininterrupta. A alma dos cabos de tração atua como o núcleo deste sistema de pressão; se a lubrificação interna seca, o atrito entre os milhares de filamentos pulveriza o aço de dentro para fora.
O diagnóstico pericial dessa patologia é o temido “Pó de Rouge” — a oxidação avermelhada e abrasiva. Quando o Responsável Técnico identifica este rastro na casa de máquinas, a resiliência molecular do cabo colapsou. A substituição deixa de ser preventiva para se tornar uma intervenção emergencial de preservação da vida.
Há, ainda, a ameaça silenciosa da inércia parasita. Reformas estéticas que adicionam revestimentos pesados sem o recálculo do contrapeso deslocam o centro de gravidade do estribo (chassi).
Apoiados nas leis da estática de Antônio Moliterno, sabemos que este desbalanceamento oblíquo destrói as sapatas e fatiga as soldas estruturais, sobrecarregando a máquina motriz. A solução contemporânea reside no refino atômico das ligas metálicas (como a aplicação de Nióbio), mitigando o peso morto sem sacrificar a resistência mecânica.
A Engenharia de Avaliações e o Capital Patrimonial
Traduzir o jargão da manutenção mecânica para o idioma financeiro é o grande desafio perante conselhos e administrações prediais. Aplicando os preceitos da Engenharia de Avaliações e o rigor do método de Ross-Heidecke (conforme a doutrina de Alberto Lélio Moreira), prova-se matematicamente que o equipamento não é uma despesa, mas o pilar do valor venal do imóvel.
Um equipamento submetido a contratos predatórios e mantido sob a cultura da negligência entra rapidamente em estado de “Reparos Importantes Necessários”. A curva de depreciação do ativo despenca, arrastando consigo o valor do metro quadrado do edifício. Modernizações profundas e reparos especializados não são gastos, mas ferramentas de recuperação patrimonial que devolvem o equipamento ao estado de “Novo”, estancando a depreciação e mitigando o passivo jurídico.
A Fronteira da Especialização
O mercado enfrenta uma crise severa de retenção de mão de obra técnica. Neste vazio, surge a tentação letal da quarteirização. É imperativo estabelecer a fronteira jurídica da responsabilidade: a manutenção rotineira da máquina que transporta vidas é a atividade-fim da empresa mantenedora. Permitir que terceiros não vinculados diretamente à empresa intervenham na conservação diária dos equipamentos rodando é romper a cadeia de custódia da segurança.
A terceirização só é legal e tecnicamente justificável em frentes de altíssima especialização: usinagem de polias, readequação de comandos ou revitalização estrutural. Nestes casos pontuais, empresas de engenharia especializadas atuam como forças de elite que entram, consertam a estrutura e devolvem o ativo operante à mantenedora.
O Futuro em Movimento
À medida que a telemetria preditiva e a internet das coisas (IoT) tomam conta dos painéis de controle, a ignorância deixa de ser uma defesa jurídica aceitável. Os dados de falha e desgaste agora existem em tempo real e de forma auditável.
O verdadeiro valor do transporte vertical no futuro não estará apenas nos algoritmos da máquina, mas na firmeza inabalável do Responsável Técnico em exigir peças certificadas, manutenção direta de excelência e o estrito cumprimento da ABNT NBR 16858.
A matemática do abismo é inflexível: o pacto contínuo de confiança biológica depende, inteiramente, da ética e do rigor que governam os bastidores.
Roberto Antônio Saggiomo Junior, 19/03/1972 – 10/07/2026