Chega de achismo

A Norma Técnica que finalmente define a vida útil dos elevadores

Há anos, o setor de transportes verticais discute a mesma pergunta: “Quando um elevador deve ser modernizado?”. As respostas sempre vieram do campo da opinião: “Especialistas dizem que é a cada 20 anos”, “Acima de 25 anos já ficou velho”, “Depois de 15 anos é melhor trocar.” Nenhuma dessas afirmações tem base normativa. São percepções repetidas pelo mercado, construídas mais por tradição comercial do que por engenharia.

Agora, o Brasil finalmente possui um instrumento técnico capaz de fundamentar essa discussão: a ABNT NBR 15575-1:2025, que estabelece critérios de Vida Útil de Projeto (VUP) para sistemas prediais, incluindo os elevadores. Essa norma inaugura uma nova fase: a modernização deixa de ser achismo e passa a ser uma conclusão técnica.

O QUE A ABNT NBR 15575-1:2025 ESTABELECE SOBRE VIDA ÚTIL?

O Anexo C da norma define três conceitos centrais:

  • Vida Útil (VU): tempo durante o qual o sistema entrega desempenho.
  • Vida Útil de Projeto (VUP): expectativa de durabilidade estabelecida pelo projetista ou incorporador.
  • Vida Útil Estimada: obtida por histórico e ensaios.

Elevadores são classificados como equipamentos funcionais manuteníveis e substituíveis, o que permite sua inclusão direta na Tabela C.6:

 

Isso permite três conclusões inéditas:

  1. Não existe regra normativa determinando modernização a cada 20 anos.
  2. Os 20 anos representam o limite superior da VUP, não uma obrigatoriedade.
  3. Modernizar passa a ser decisão baseada em desempenho, segurança, obsolescência e custo global, e não apenas em idade.

Um elevador pode funcionar por 30 ou 40 anos? Sim! Mas apenas se houver projeto, manutenção e documentação coerentes.

O ELO ESQUECIDO: O PLANO DE MANUTENÇÃO ANUAL!

A NBR 15575 é clara: sem manutenção adequada, não existe vida útil. Sem manutenção adequada, não existe VUP. Isso coloca o Plano Anual de Manutenção, previsto também na ABNT NBR 5674, como elemento central. Entretanto, realizando diversas vistorias independentes pelo Brasil, observo um cenário preocupante:

  • Quase nenhuma empresa possui um plano anual bem estruturado;
  • Quando possuem, não seguem as tarefas mensais;
  • Técnicos executam manutenção “como acham que deve ser”;
  • Não existe auditoria interna para verificar execução;
  • Itens críticos ficam anos sem inspeção;
  • Registros são incompletos ou inexistentes.

Essa realidade compromete completamente a VUP prevista na norma. O elevador “envelhece antes do tempo”. A 15575 evidencia isso: não há vida útil sem manutenção real!

COM ISSO VEM A PERDA DA ESSÊNCIA TÉCNICA: O SETOR VIROU COMERCIAL!

É comum ouvir que: “O mercado está prostituído.” E, infelizmente, essa percepção reflete parte da realidade. O que se vê:

  • Contratos vendidos por preços incompatíveis com manutenção adequada;
  • Redução de tempo de visita técnica;
  • Substituição de peças guiada pelo comercial, não pela engenharia;
  • Falta de engenheiros responsáveis;
  • Ausência de ART;
  • Manutenção sem metodologia;
  • Foco exclusivo em lucro, não em segurança.

Um setor historicamente técnico passou a ser conduzido, em muitos casos, pelo preço.

TAMBEM TEMOS O PROBLEMA MAIS CRÍTICO: ELEVADORES MONTADOS COMO “LEGO”, O QUE ESPERAR PARA OS PRÓXIMOS ANOS?

Outra situação frequente no Brasil é a instalação de elevadores compostos por peças de diferentes fornecedores, adquiridas separadamente, sem memorial de cálculo, sem compatibilidade mecânica, sem validação de esforços e sem projeto formal. Para ilustrar esse fenômeno de forma simples, utilizo a metáfora: “Elevador não é LEGO.”

É essencial esclarecer: Essa frase é apenas uma analogia com um brinquedo. Não é utilizada para rebaixar empresas ou profissionais. A metáfora serve para demonstrar que:

  • Elevadores não são conjuntos modulares intercambiáveis;
  • Não existe compatibilidade universal entre componentes;
  • Esforços estruturais precisam ser validados;
  • O sistema deve ser projetado como um todo;
  • Sem ART e memorial, não existe responsabilidade técnica;
  • Sem projeto integrado, não há vida útil de projeto.

A ABNT 15575 deixa claro que a VUP só é alcançada quando o equipamento nasce de um projeto, e não de improvisos.

  

AFINAL, QUAL É O TEMPO IDEAL PARA MODERNIZAR UM ELEVADOR?

O setor sempre buscou um número mágico. Agora temos, pela primeira vez, um referencial técnico normativo: O tempo ideal de modernização não é um número único, e sim uma FAIXA TÉCNICA. Pela ABNT NBR 15575-1:2025, a modernização deve ser considerada entre 13 e 20 anos, dependendo do desempenho, da segurança, da obsolescência e da manutenção realizada.

Um elevador que chega aos 17 anos com falhas recorrentes, indisponibilidade, desgaste ou dificuldade de ajuste já ultrapassou sua VUP intermediária. Aos 20 anos, alcança-se o limite superior, momento em que a modernização deixa de ser opção e passa a ser expectativa técnica. E a afirmação mais importante de todas:

Nenhum elevador atinge sua vida útil normativa sem o cumprimento do Plano Anual de Manutenção e sem seguir rigorosamente as orientações do fabricante. Vida útil não é idade! É consequência direta da engenharia.

A ABNT NBR 15575-1:2025 não apenas estabelece a VUP. Ela marca o início da reconstrução técnica do setor de elevadores no Brasil, recolocando projeto, manutenção e responsabilidade técnica no centro do que realmente importa: a segurança dos usuários e a integridade dos equipamentos.

SOBRE O AUTOR

Homem em pé com chapéu Descrição gerada automaticamente

Carlos Eduardo é Proprietário da ON Soluções em Engenharia, Engenheiro Mecânico e Engenheiro de Segurança do Trabalho, além de possuir os cursos Técnicos em Mecânica e Eletrônica. Tem 15 anos de experiência na área de transportes verticais, na qual, trabalhou nas três maiores fabricantes de elevadores e escadas/esteiras rolantes do mundo. Top Voice do LinkedIn, que leva conteúdos na área de transportes verticais. Também é membro do Comitê Nacional da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), de estudos, atualizações e revisões de normas técnicas, pertinentes a Cabos de Aços, Elevadores, Plataformas de Acessibilidade, Escadas e Esteiras Rolantes.

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