Quando a engenharia deixa de fazer parte da manutenção dos elevadores

Ao longo de mais de quinze anos atuando exclusivamente no setor de transportes verticais, com passagem em fabricantes multinacionais, participando de revisões de normas técnicas da ABNT, realizando perícias, auditorias e vistorias independentes em elevadores de diferentes fabricantes e empresas de manutenção no Brasil, passei a perceber uma mudança silenciosa, porém extremamente preocupante.

Não se trata do surgimento de uma nova tecnologia, da evolução das normas técnicas ou da modernização dos equipamentos. A mudança que mais me preocupa é outra: a engenharia, pouco a pouco, parece estar deixando de fazer parte da manutenção dos elevadores.

Essa afirmação pode parecer exagerada em um primeiro momento, mas basta observar com atenção o que encontramos diariamente em campo para compreender que o problema não está restrito a uma empresa, a uma marca ou a um modelo de gestão. Estamos diante de uma transformação cultural que vem reduzindo gradativamente o padrão técnico da manutenção.

Em praticamente todas as auditorias que realizamos, algumas não conformidades se repetem de forma quase previsível. Um bom exemplo, cabos de aço operando sem qualquer evidência de equalização, máquinas de tração funcionando com óleo degradado, abaixo do nível recomendado ou sem qualquer controle sobre os intervalos de substituição, além da ausência de um Plano Anual de Manutenção efetivamente implantado, conforme previsto na ABNT NBR 16083.

O aspecto mais preocupante, entretanto, não é a existência dessas falhas. É o fato de elas já não causarem estranheza.

Houve um tempo, como o exemplo que citei, em que a equalização dos cabos de aço fazia parte da rotina da manutenção. O técnico compreendia que pequenas diferenças de tensão entre os cabos provocavam distribuição desigual das cargas, aceleravam o desgaste dos canais da polia de tração, reduziam a vida útil dos cabos, comprometiam o desempenho do sistema, além de trazer custos desnecessários para o cliente. A verificação periódica era entendida como uma atividade preventiva essencial e não como um serviço opcional.

Da mesma forma, o acompanhamento das condições do óleo da máquina de tração seguia rigorosamente as recomendações dos fabricantes, porque se compreendia que a lubrificação adequada era determinante para preservar componentes de elevado valor agregado, como eixos, mancais, rolamentos e conjuntos de engrenagens.

O Plano Anual de Manutenção também possuía uma função clara dentro da engenharia de manutenção. Não era apenas um documento arquivado para atender uma exigência contratual ou normativa. Era a ferramenta que organizava intervenções preventivas, estabelecia prioridades, permitia rastreabilidade dos serviços e reduzia a dependência da manutenção corretiva.

Hoje, infelizmente, essa realidade vem mudando! Em muitos casos, a equalização dos cabos sequer é lembrada durante a manutenção periódica. O Plano Anual de Manutenção é desconhecido por parte das equipes ou permanece apenas no papel, sem qualquer acompanhamento efetivo. A troca do óleo da máquina de tração deixa de seguir critérios técnicos e passa a ocorrer apenas quando surge algum problema evidente.

Mais preocupante do que a execução inadequada desses serviços é perceber que muitos profissionais sequer foram apresentados à importância dessas atividades durante sua formação prática. Quando o conhecimento deixa de ser transmitido, perde-se muito mais do que procedimentos operacionais. Perde-se a capacidade de compreender por que determinadas atividades existem e quais consequências surgem quando deixam de ser executadas.

Esse talvez seja o maior desafio vivido atualmente pelo nosso setor! Durante muitos anos, a manutenção de elevadores foi construída sobre uma sólida base de conhecimento acumulado por profissionais experientes, fabricantes, normas técnicas e manuais de engenharia. Era comum que técnicos mais antigos transmitissem aos mais novos não apenas a forma correta de executar um procedimento, mas principalmente os fundamentos que justificavam cada intervenção.

Essa cultura técnica foi responsável por formar gerações de profissionais. Hoje, entretanto, observa-se um cenário diferente.

Equipes cada vez mais enxutas, redução do tempo disponível para manutenção preventiva, alta rotatividade de profissionais, investimentos insuficientes em treinamento e uma gestão frequentemente orientada por indicadores de produtividade acabam deslocando o foco da engenharia para a simples operação do serviço.

Naturalmente, empresas precisam ser sustentáveis e obter resultados financeiros. Isso faz parte de qualquer atividade empresarial, mas o problema surge quando a produtividade passa a ser medida quase exclusivamente pela quantidade de chamados atendidos, pelo tempo de deslocamento ou pelo número de equipamentos sob responsabilidade de cada técnico, enquanto indicadores relacionados à qualidade técnica da manutenção passam a ocupar um papel secundário.

A manutenção deixa de ser planejada para evitar falhas e passa a ser estruturada para responder rapidamente quando elas acontecem.

O reflexo desse processo ultrapassa os limites das empresas de manutenção.

O síndico passa a acreditar que aquele padrão de conservação é normal porque nunca conheceu uma referência diferente. O condomínio deixa de exigir determinadas atividades porque desconhece sua importância, empresas que investem em treinamento, planejamento e manutenção preventiva frequentemente enfrentam dificuldades para justificar seus custos diante de um mercado que passou a comparar apenas preços, como se todas entregassem exatamente o mesmo serviço.

Com o tempo, até empresas que iniciam suas atividades com excelente padrão técnico acabam sendo pressionadas a seguir a lógica predominante do mercado, reduzindo investimentos em engenharia para permanecer competitivas. Esse talvez seja o efeito mais perigoso da perda da cultura técnica: ela deixa de afetar apenas uma empresa e passa a redefinir o próprio conceito de qualidade do setor.

Ao longo da minha carreira, sempre procurei exercer a engenharia com um princípio muito simples: colocar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilo, sabendo que nenhuma decisão técnica tomada por mim contribuiu para colocar vidas em risco.

Talvez seja justamente por isso que muitas vezes eu seja visto como “o chato da norma”. Aceito essa definição com absoluta tranquilidade.

Porque nunca enxerguei as normas técnicas como um obstáculo à manutenção. Sempre as enxerguei como a materialização de décadas de conhecimento, experiências acumuladas, estudos de engenharia e, infelizmente, também das lições aprendidas após inúmeros acidentes ocorridos no Brasil e ao redor do mundo.

Quando deixamos de aplicar esse conhecimento, não estamos apenas deixando de cumprir um requisito normativo, mas estamos permitindo que a engenharia seja substituída pela improvisação. E talvez seja esse o maior risco que enfrentamos atualmente.

A engenharia não desaparece de forma repentina, mas vai sendo retirada da manutenção de maneira silenciosa. Primeiro deixa-se de equalizar os cabos de aço, depois o óleo da máquina de tração deixa de ser acompanhado. O Plano Anual de Manutenção passa a existir apenas para cumprir formalidades, o técnico recém-contratado aprende que aquele padrão é o correto porque nunca conheceu outro. E por fim, o cliente deixa de cobrar porque nunca viu algo diferente.

Quando percebemos, aquilo que deveria ser tratado como exceção passa a ser encarado como rotina.

Talvez tenha chegado o momento de fazermos uma reflexão como setor. Não sobre quem executa mais chamados, quem possui a maior carteira de contratos ou quem apresenta o menor preço, mas sobre qual engenharia queremos deixar para as próximas gerações de profissionais.

Porque normas podem ser revisadas, tecnologias continuarão evoluindo e novos equipamentos certamente serão desenvolvidos. Mas, se perdermos a cultura técnica que sustenta a manutenção dos elevadores, estaremos perdendo justamente o elemento que sempre diferenciou a engenharia da simples execução de serviços.

Carlos Eduardo dos Santos
Carlos Eduardo dos Santos
Carlos Eduardo é Engenheiro Mecânico e Engenheiro de Segurança do Trabalho, com mais de 15 anos de experiência na área de transportes verticais. É proprietário da ON Soluções em Engenharia, empresa especializada em auditorias, vistorias técnicas, projetos e treinamentos em elevadores, escadas e esteiras rolantes. Atuou nas três maiores fabricantes de elevadores do mundo, acumulando experiência prática em campo, projetos e manutenção. Atualmente, também é professor de pós-graduação e cofundador do Engenheiros do Elevador, a primeira comunidade brasileira dedicada à capacitação de engenheiros e tecnólogos mecânicos para atuação independente em vistorias e inspeções técnicas. É membro do Comitê Nacional da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), participando de estudos, revisões e atualizações de normas relacionadas a cabos de aço, elevadores, plataformas de acessibilidade e escadas/esteiras rolantes. Associado ao IBAPE-ES (Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia) e Inspetor do CREA-ES em cargo honorífico. Possui ainda formação técnica em Mecânica e Eletrônica.

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