O Elevador do Bom Jesus do Monte em Braga, Portugal

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O Elevador do Bom Jesus do Monte é um centenário funicular, situado nos arredores da cidade de Braga e, porventura, uma das suas maiores atrações turísticas. O seu percurso desenvolve-se do lado esquerdo do monumental Escadório do Santuário do Bom Jesus do Monte, erigido em estilo barroco em 1721 pelo então Arcebispo de Braga, Don Rodrigues de Moura Teles.

Braga é uma cidade muito antiga, fundada pelo imperador romano Cesar Augusto em 16 a.C. e, nessa época, chamava-se Bracara Augusta. Situa-se no Norte de Portugal e tem atualmente uma população com  cerca de 200 mil habitantes.

Inaugurado em 25 de março de 1882, este funicular é o mais antigo de Portugal e é também o mais antigo do mundo a funcionar com contrapeso de água. É propriedade da Confraria do Bom Jesus do Monte, que também é responsável pela manutenção e exploração. Portugal dispõe, atualmente, de seis funiculares em serviço:

  • Bom Jesus de Monte, em Braga (1882)
  • Nazaré (1889)
  • Monte de Santa Luzia), em Viana do Castelo (1923)
  • Guindais, no Porto (2004)
  • Ramal de S. João, na Covilhã (2013)
  • Graça, em Lisboa (2024)

Refira-se que tanto o funicular da Nazaré, como o de Santa Luzia, foram profundamente remodelados, respectivamente em 1968 e 2023. A iniciativa da construção do Elevador do Bom Jesus deveu-se ao dinâmico empresário bracarense, Manuel Joaquim Gomes, e ao talentoso engenheiro portuense de ascendência francesa, Raul Mesnier de Ponsard.

Manuel Joaquim Gomes tinha fundado, cinco anos antes da inauguração do Elevador do Bom Jesus, a Companhia Carris de Braga, com carros “americanos” que circulavam entre a estação do Caminho de Ferro e o Pórtico de entrada do Escadório do Bom Jesus.

Por seu lado, coube a Raul Mesnier de Ponsard dirigir os trabalhos de construção do Elevador, em estreita ligação com Nikolaus Riggenbach, engenheiro suíço que tinha conhecido uns anos antes durante um estágio feito na Suíça, e a quem se deve o projeto e a construção dos equipamentos nas Oficinas de Olten.

Este célebre inventor suíço notabilizou-se pela construção do funicular de Giessbach (1879), primeiro funicular suíço com sistema de contrapeso de água, que mais tarde passaria a ser acionado por máquina elétrica. Raul Mesnier de Ponsard, depois do elevador do Bom Jesus, construiu em Lisboa, entre outros, o Elevador de Santa Justa, (1902) porventura a sua obra mais conhecida. Também a ele se deve o funicular da Nazaré.

Características

O Elevador do Bom Jesus vence um desnível de 116 metros (com uma inclinação média de 42 %) em um percurso de 274 metros, com um tempo de viagem de 4 a 2,5 minutos a uma velocidade média de 1,2 a 1,8 m/s. Dispõe de duas vias férreas paralelas, uma para cada cabina, com a bitola de 1.435 mm. São tracionadas por um cabo de aço de 38 mm de diâmetro, que liga entre si as duas cabinas, passando por uma roldana de inversão com 3.620 mm de diâmetro e apoiado em 48 roldanas de suporte.

Umas das caraterísticas mais peculiares do Elevador do Bom Jesus é o sistema de alimentação da água. Os reservatórios das duas cabinas são abastecidos através das fontes e nascentes da Estância do Bom Jesus, canalizadas por uma tubagem que alimenta um depósito subterrâneo, localizado junto ao piso superior do Elevador. Assim, é verdadeiramente um sistema de transporte sustentável.

Cada uma das duas cabinas pode transportar 38 passageiros e dispõe de um depósito de água para 5.850 litros. A indicação de nível é realizada por um sistema de boia flutuante com ponteiro e régua graduada com 6 marcas. Cada marca corresponde a 1.000 litros de água. A quantidade de água a colocar no depósito é função da diferença do número de pessoas a subir e a descer, calculado através do seguinte sistema muito simples e eficaz:

  • Antes de iniciar a marcha, o condutor da cabina inferior informa ao seu colega, da cabina superior, o número de passageiros que irá transportar, através de um toque de campainha: para cada grupo de 6 passageiros é dado um toque de campainha;
  • Em face desta informação, o condutor da cabina superior abre o passador que descarrega a água para dentro do depósito. O volume a colocar é medido pelo número de marcas que são calculadas pelo número de toques menos o número de grupos de 6 passageiros para descer;
  • Desta maneira, a cabina superior torna-se mais pesada do que a inferior e o movimento começa assim que estejam libertados os travões das duas cabinas, sendo a velocidade regulada manualmente pela ação no travão a cabina descendente. Com a chegada ao nível inferior, a água é descarregada automaticamente, através de uma válvula automática, para regar campos agrícolas nas proximidades;
  • O sistema de travagem deste elevador é muito engenhoso, sendo constituído por oito calços em liga de bronze, encostados a quatro tambores estriados fixados às duas rodas dentadas que ligam aos dois eixos dos rodados, acionados pelo condutor através de um fuso de atuação manual.

A refrigeração destes travões é feita pela água que cai continuamente do depósito auxiliar, com capacidade de 72 litros. Existe também um sistema de travagem de emergência, constituído por um contrapeso que atua diretamente nos travões. O seu acionamento é efetuado pelo condutor em caso de falha do travão principal, ou automaticamente, em caso de rebentamento do cabo ou engate do sistema de tração. Por sua vez, essas rodas dentadas transmitem os esforços de travagem aos dentes da cremalheira tipo “Riggenbach”, fixada rigidamente às travessas de madeira da via.

 Em 2006, este funicular foi objeto de importantes obras de recuperação e reabilitação, mantendo, todavia, a traça original. Foram substituídos os carris e as cremalheiras e foram renovadas as cabinas (estrutura metálica e carroçaria de madeira).

O Monumental Escadório do Santuário do Bom Jesus do Monte, em estilo barroco, construído em 1723 pelo então Arcebispo de Braga, Don Rodrigo de Moura Teles, narra a Via Sacra através de capelas dotadas de imagens em madeira policromada, envolvidas por uma frondosa floresta.

Vence um desnível de 116 metros com 573 degraus e segue um percurso paralelo ao do funicular. Está dividido em três lanços: “Escadório do Pórtico”, o “Escadório dos Cinco Sentidos” e o “Escadório das Três Virtudes”. No primeiro lanço podemos ver as primeiras dez capelas da Via Sacra. No segundo lanço, chamado dos Cinco sentidos, podemos ver fontes alegóricas dedicadas a este tema: Visão, Audição, Olfato, Paladar e Tato. No último lanço, chamado das Três virtudes, podemos ver fontes alegóricas dedicadas ao tema das três virtudes teologais: Fé, Esperança e Caridade.

O escadório termina no terreiro de Moisés, junto à estátua equestre de São Longuinho – junto ao qual se situa a Basílica do Bom Jesus, datada de 1811 e construída no estilo neo-clássico pelo arquiteto Carlos Amarante.

Em 2019 o Santuário do Bom Jesus do Monte foi declarado Patrimônio Mundial pela UNESCO. A zona classificada abrange uma área de 26 hectares, incluindo o patrimônio arquitetônico, o patrimônio religioso, o patrimônio natural e o patrimônio industrial – neste último caso, o elevador.

Toda esta zona é muito aprazível, sendo totada de vários hotéis e restaurantes e  muito procurada pelos turistas de Braga e de outros pontos do país. O escadório do Santuário do Bom Jesus do Monte serviu de inspiração ao do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, Minas Gerais.

SOBRE O AUTOR

António Carlos de Andrade Figueiredo Vasconcelos é licenciado em Engenharia Eletrotécnica pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, em Portugal. Fez toda sua vida profissional na Efacec, tendo ocupado diversos cargos, como responsável pelos Estudos da Divisão de Elevadores, Chefe de Divisão de Elevadores e Chefe da Divisão de Sistemas de Sinalização e Tração. É Membro da Ordem dos Engenheiros, com o título de Especialista em Transportes e Vias de Comunicação. É colaborador da revista online “Elevare”, assinando a rubrica “Ascensores com história”.

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