Distância entre brackets e a segurança invisível dos elevadores

Por que o memorial de cálculo é indispensável?

No mercado de elevadores, é comum ver empresas definindo guias e freios de segurança apenas com base em informações comerciais, como a capacidade da cabina. O vendedor sugere o modelo, a empresa de elevador confia, e o elevador é instalado sem qualquer cálculo técnico (que é responsabilidade da empresa que vende e instala o elevador). Essa prática transmite uma falsa sensação de segurança: afinal, o equipamento quase sempre passa no teste de queda livre.

O problema é que esse ensaio reproduz apenas o carregamento normal. O que realmente importa é o carregamento extremo, quando ocorre o rompimento dos cabos ou estrutura, e o freio de segurança precisa atuar com toda a sua força sobre a guia. Nesse cenário, se a guia não estiver corretamente dimensionada, ocorre a flambagem excessiva, e o freio perde sua função.

O que é carregamento normal x carregamento extremo?

Carregamento normal: simulado em testes de queda livre, ele é feito antes de entregar o elevador para uso, este geralmente passa e é aprovado.

Carregamento extremo: forças muito superiores, aplicadas em caso de rompimento de cabos ou estrutura. Não pode ser reproduzido em ensaio físico, só o memorial de cálculo consegue prever a resposta estrutural.

Muitas empresas ainda ignoram esse cenário extremo, alegando que a probabilidade de rompimento total dos cabos ou estrutura é pequena. Mas os acidentes registrados nos últimos anos mostram que essa premissa não se sustenta, principalmente sem memorial de cálculo ou sem manutenção adequada.

Outro ponto importante: o papel dos brackets e da distância de fixação. As guias funcionam como colunas e os brackets são os apoios que determinam sua esbeltez. No geral:

  • Quanto maior a distância entre brackets, maior a flambagem.
  • Quanto menor a distância entre brackets, maior a rigidez e segurança.

Essa distância não pode ser definida por “achismo” ou por recomendação de fornecedor ou montador. Precisa ser calculada individualmente para cada elevador.

Exemplo prático

Durante uma vistoria que realizei, foi identificado que um elevador de 5 pavimentos, capacidade de 600 kg, não atendia ao carregamento extremo. Foi então realizado o memorial de cálculo completo de flambagem para diagnosticar e corrigir o problema. Abaixo, trouxe apenas o resultado final:

Guia considerada: T70-1/A, espessura 9 mm

Peso cabina + capacidade: 900 kg

Força de frenagem do freio de segurança: 13.243 N

Caso inicial (Distância entre brackets) = 3.000 mm

dx <= 5mm = 14,68 mm (REPROVADO)

dy <= 5 mm = 5,78 mm (REPROVADO)

O valor dx representa a distância que a guia “abre” sob a força do freio em queda livre. Com 14,68 mm, a deformação ultrapassou quase três vezes o limite de 5 mm. Nesse cenário, o freio até atuaria, mas sem apoio firme, permitindo a continuação da queda livre.

Solução aplicada nesse caso, a distância entre brackets foi ajustada para 1.800 mm, colocando mais uma rodada de brackets a cada 1.500 mm.

dx <= 5 mm = 3,17 mm (APROVADO)

dy <= 5 mm = 1,25 mm (APROVADO)

A guia permaneceu estável dentro do limite de 5 mm. O freio de segurança encontrará o apoio adequado e passará a atuar de forma eficaz em casos extremos. Esse exemplo mostra, na prática, que o memorial de cálculo não é burocracia, mas sim a ferramenta que revela falhas ocultas e orienta soluções para garantir a segurança dos usuários.

Não existe receita pronta. Dois prédios de 5 pavimentos dificilmente terão exatamente a mesma medida. O percurso da guia varia conforme altura da edificação, poço e casa de máquinas. Cada caso exige memorial de cálculo individual e ART do engenheiro mecânico responsável.

Além da distância entre brackets, há outros elementos que influenciam diretamente a segurança das guias, como os clips de fixação (deslizantes e forjados). Esses componentes também devem ser considerados, já que podem ser o ponto de falha em situações extremas.

Como esse tema já foi abordado em edições anteriores da Revista Elevador Brasil, não será aprofundado neste artigo, mas cabe lembrar que a análise de clips é complementar e igualmente essencial.

Situações em que não é possível reduzir a distância entre brackets

É importante ressaltar que, em alguns equipamentos já instalados, não há como reduzir a distância entre brackets, seja por limitação da estrutura civil, seja por ausência de pontos de fixação. Nessas situações, não se deve simplesmente ignorar o problema.

É necessário realizar um estudo ainda mais detalhado, buscando alternativas que possam garantir a segurança do conjunto, como reforços estruturais ou revisão do sistema de freio de segurança, sempre com base em memorial de cálculo individualizado.

O setor de elevadores ainda sofre com práticas simplificadas, confiando em recomendações de vendedores ou em cálculos incompletos que ignoram o carregamento extremo. Esse caminho é perigoso, pois gera conformidade aparente, mas deixa vulnerável o que deveria ser inegociável: a segurança do usuário. Só o memorial de cálculo, individual e completo, garante que a guia resistirá à força real que o freio de segurança aplicará em uma emergência.

“Um simples metro a mais entre brackets pode transformar o freio de segurança em aliado ou em espectador da queda livre. A diferença está no memorial de cálculo.”

SOBRE O AUTOR

Carlos Eduardo é Proprietário da ON Soluções em Engenharia, Engenheiro Mecânico e Engenheiro de Segurança do Trabalho, além de possuir os cursos Técnicos em Mecânica e Eletrônica. Tem 15 anos de experiência na área de transportes verticais, na qual, trabalhou nas três maiores fabricantes de elevadores e escadas/esteiras rolantes do mundo. Top Voice do LinkedIn, que leva conteúdos na área de transportes verticais. Também é membro do Comitê Nacional da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), de estudos, atualizações e revisões de normas técnicas, pertinentes a Cabos de Aços, Elevadores, Plataformas de Acessibilidade, Escadas e Esteiras Rolantes.

 

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